Eu sou negão

A cor da minha pele não nega, sou descendente de africanos, os mesmos que um dia foram capturados e obrigados a servirem de degrau para que muitos pobres de espírito subissem na vida.

Não tenho a intenção, estimado leitor, de criar critérios sobre essa ou aquela raça, pois, como entendi através do tempo e com muita leitura, somos todos de uma só raça: a humana.

Mas gostaria de contar um pouco do que vivi na capital baiana, por conta da minha origem étnica.

Nasci no bairro da Liberdade, em Salvador, onde se concentra a maior população negra soteropolitana. Logo depois eu e minha família fomos morar em Cajazeiras, também na periferia de Salvador. Dois bairros pobres e cheios de negros.

Meus pais sempre priorizaram a educação para mim e meus irmãos, fato que me levou a nunca estudar em colégio público.

Durante todo o primário escolar estudei no bairro onde morava e, nesse tempo, convivendo com pessoas de igual situação econômica, social e cultural, nunca fui chamado por outro nome que não tenha sido o que consta da minha certidão de nascimento.

Mas, ao completar 10 anos, tudo mudou: minha voz ficou mais grossa, cresceram pentelhos, bigode, contraí miopia e astigmatismo e o grande divisor de águas, que traria uma verdadeira metamorfose social e cultural neste pequeno ser terreno: fui estudar no Colégio Alfred Nobel, um dos mais renomados de Salvador, situado no rico bairro do Itaigara.

Tudo era novidade: aulas de inglês, lindas meninas, colegas riquíssimos, vários esportes e eu. Sim, eu também era uma novidade para aquelas pessoas que estudavam comigo.

O único negro da sala, por mais que soe preconceituoso falar assim, é isso o que eu era.

Tem gente!

Eu só era chamado por Sérgio Caetano na lista de presença dos professores. Já pelo resto da turma era picolé de betume, sorvete de asfalto, moreninho cor de disco, negão, negrinho, peido de mula (esse sujeito que me chamava de peido de mula no mínimo devia tomar suas doses de LSD aos 10 anos né?).

Além do quê, sempre ouvia de um e de outro: “Sabe quando Sérgio anda de carro? Quando a polícia pega. Ou então: Sabe quando Sérgio vai subir na vida? Quando o barraco dele explodir.

E mais: “Sabe quando Sérgio é gente? Quando alguém bate na porta do banheiro e ele responde: tem gente!”

No início, isso me incomodava.

Mas depois, virou dito popular e como diz o ditado: se não pode com ele, junte-se a ele. Então, passado um ano eu já achava até graça daquelas coisas medonhas que me chamavam e assim ficou até a 8ª série.

Era engraçado porque onde eu não achava que aquilo pudesse acontecer, um reduto de pessoas de alto nível cultural e financeiro, era justamente onde reinava a ignorância racial e os estereótipos.

Tudo bem que éramos pré-adolescentes, cheios de hormônios e piadas sem graça, mas não se pode deixar passar essa patologia social.

Lembro de um dia em que jogávamos basquete na aula de educação física do professor B.C (sigla para bobo careca). Depois de divididos os times, fui falar com o professor:

“B.C, eu não sei jogar, nunca vi uma bola de basquete na vida”.

Aí ouvi de Hélio, um dos caras mais ricos da sala: “Oxi, e tu não é preto, porra? Todo preto sabe jogar basquete, vê lá os negão da NBA, tudo fera”. Gargalhada geral, o único que não riu foi o professor.

Preconceito virou tema de projeto experimental

O tempo passou e, anos depois, toda essa tiração de onda me rendeu uma excelente experiência no projeto experimental do meu curso de publicidade e propaganda na universidade.

O tema do meu grupo era preconceito, e tínhamos que desenvolver uma campanha publicitária para o Instituto de Direitos Humanos. Ponto pra mim, fizemos a campanha e criamos o conceito “RACISMO CORDIAL”.

A campanha foi toda em cima dessas piadinhas que faziam comigo na escola. Para vocês terem uma noção vou transcrever aqui a letra do jingle que criei para campanha.

Quero aproveitar e mais uma vez parabenizar e agradecer ao Juliano, baterista da banda Sonzeira Band, de Natal/RN, que musicou e transformou em um bom rap a letra que fiz.

E também agradecer aos meus colegas de classe do Colégio Alfred Nobel pela experiência vivida com eles, para que hoje pudesse entender e saber existir e resistir.

 Jingle 30”

Título: Racismo Cordial 

Tenho um nome de batismo que só

Meus professores e parentes se referem a mim

Meu chefe me chama de negão

Minha namorada quando tá dengosa diz: ô meu pretinho.

Meus amigos de pelada, já me chamaram de azulão

Às vezes arriscam um meu irmão cor de piche. Vixi!

Não agüento mais esse racismo cordial

Sou negro sim

Mas, me chamo João, Jão, Jão.  

Locução de assinatura: Diga não a toda forma de racismo. Uma campanha do Instituto dos Direitos Humanos do RN.

Escritor e publicitário baiano radicado em Natal [ View all posts ]

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