“Eu sou um mito”, afirma Cohn-Bendit

Líder do Maio de 68 diz ser refém daquela época e fala da necessidade de refletir sobre os “erros da revolução”

Hoje no Partido Verde, ativista alemão, que fez palestra em Porto Alegre, ataca política ambiental do Brasil

MARCOS FLAMÍNIO PERES
ENVIADO ESPECIAL A PORTO ALEGRE
FSP

“Objetivamente, eu sou um mito, mesmo que tente me libertar dessa imagem.” Eternizado na foto que o mostra, irônico, desafiando um policial durante os protestos de Maio de 68 em Paris, Daniel Cohn-Bendit é vítima de seu próprio sucesso.

Mas, aos 65 anos, o hoje deputado pelo Partido Verde no Parlamento Europeu rebate, em entrevista à Folha, a acusação de haver “se instalado no sistema”.

Cohn-Bendit, que falou na segunda no ciclo Fronteiras do Pensamento, diz que é preciso fazer refletir sobre os “erros da revolução”.

O alemão, que em 1983 viajou pelo Brasil e assistiu ao Corinthians, elogia a seleção alemã de futebol como multicultural, diz que a proibição das burcas na França é uma questão menor e ataca Mahmoud Ahmadinejad -“irracional e totalitário”.

Cohn-Bendit, que se encontra hoje com a candidata Marina Silva (PV), critica Lula por não dar importância à questão ecológica.

Folha – Qual a diferença entre ser jovem hoje e nos anos 60?

Daniel Cohn-Bendit – Hoje é muito mais difícil. Em 68, todas as utopias -as mais justas, as mais tolas- estavam à nossa disposição. Hoje, elas não querem dizer mais nada, e as crises -econômica e ecológica- são mais profundas, o que torna mais difícil para o jovem encontrar seu lugar.

Em 2008, a “Nouvel Observateur” o acusou de haver “se instalado” no sistema…

Em 68, queria a transformação da sociedade por processo revolucionário, mas isso só é possível dentro das instituições democráticas.

Por que Maio de 68 parece ser uma herança maldita na França, criticada tanto à esquerda quanto à direita?

Ele foi uma resposta à sociedade dos anos 60 e hoje enfrentamos outros problemas. Não é culpa de Maio de 68 se os jovens são indisciplinados ou se há distúrbios nas periferias das grandes cidades. Maio de 68 se tornou hoje um mito e todo mundo tenta instrumentalizá-lo.

O sr. se vê como um mito?

Sim, em toda parte os jovens falam comigo a partir da imagem que têm de 68.

E como seu filho o trata?

Bem, ele é malandro: “Mas em 68 você fazia o que queria. Por que agora não quer que eu faça tal coisa?”

Aprova a proibição da burca na França?

Essa é uma questão inútil, que afeta pouquíssima gente. O que há, sim, é um problema com o integrismo islâmico, não com o islã em si.

O Reino Unido, com sua política multiculturalista, lida melhor do que a França com a questão da diferença?

Lá é o lugar que mais produz terrorismo, o que prova que o comunitarismo não tornou a sociedade britânica mais unida ou pacificada.

Porque a esquerda parece ser hoje um fenômeno americano e não europeu?

Na Europa, está ligado ao fracasso dos sociais-democratas em regular o capitalismo. Na América Latina, acho que tem a ver com os efeitos da ditadura. Mas Lula representa uma esquerda de 30 anos atrás, que defendia o produtivismo a todo custo. O Brasil pode pagar muito caro por isso, pois está fracassando em sua virada ecológica.

O jornalista MARCOS FLAMÍNIO PERES viajou a convite do ciclo Fronteiras do Pensamento.

“É preciso esquecer Maio de 68”, afirma ativista durante palestra

DO ENVIADO A PORTO ALEGRE

Quando Daniel Cohn-Bendit sobe ao palco e desanda a falar e gesticular, é fácil entender o papel que ele deve ter exercido nas revoltas estudantis do longínquo 1968, tanto nas ruas quanto no campus da Universidade de Nanterre.

A retórica inflamada, os braços incansáveis para cima e para baixo, a cabeleira (sim, ele ainda a tem!) entre o loiro e o ruivo e o rosto sempre transtornado fazem de qualquer lugar-comum um ovo de Colombo.

“Esqueçam 68!”, brada logo no início. Está bem, mas, se apagássemos essa parte de sua biografia, ele certamente não estaria ali na nossa frente, falando a quase mil pessoas reunidas no auditório da Universidade Federal do Rio Grande Sul.

Cohn-Bendit faz um apanhado das utopias que fracassaram na história -Revolução Francesa, comunismo, fascismo, Revolução Cubana. Nada mais justo e de bom senso do que defender essa ideia, pois todas resultaram em barbárie, lembra.

A democracia burguesa, afirma, é a única alternativa possível, pois ela constitui a base das sociedades abertas.

China, Irã, Rússia e a Venezuela de Chávez não são sociedades abertas porque não têm a liberdade como fundamento. “Eu era um anarquista libertário e demorei para entender que as mudanças só ocorrem se houver estruturas democráticas.”

Para ele, só restam duas utopias possíveis: primeiro, a União Europeia, que é um sonho de integração política e cultural. O banimento do uso de burcas e a deportação de ciganos na França, a proibição de minaretes na Suíça ou o fenômeno Berlusconi são apenas retrocessos temporários e normais, crava.

A outra utopia de Dani, o ex-vermelho, é a verde. É preciso mudar modos de produção e estilos de vida para não esgotar o planeta.

Mas, quando nos damos conta de que o ícone de uma geração fala ali sozinho no alto do palco só tendo à frente o logo da petroquímica que o trouxe -e a vários outros nomes de inegável prestígio intelectual-, somos obrigados a concordar com ele: talvez seja melhor esquecer Maio de 68. (MFP)

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