Eu tive muita sorte

Imagem: 3×4 Fotografia

“Ela sabe ser forte e não foi a sorte que a fez seguir

Pôs sua voz como um grito por todas que estavam à sombra de ser”

Talma&Gadelha – Trecho da música “Grita”

Eu gostaria de me apresentar.

Meu nome é Ana Morena Tavares. Sou musicista, produtora e empreendedora cultural há mais de 20 anos. Sou mulher, latina, alimento o amor e combato o ódio dentro de mim e ao meu redor.

Meus amigos me chamam de advogada do diabo porque sou aquela que sempre analisa o outro lado antes de emitir uma opinião. Também tenho na Música minha mola propulsora de vida, de diversão e de muito trabalho.

Considero a arte uma atividade política e acredito que só através dela seremos salvos da mediocridade, da intolerância e da falência social. Meu Deus é o Universo e o meu manual é a Lei do Retorno.

Venho de uma família que sempre, absolutamente sempre, me permitiu ser quem eu sou ou descobrir o que eu queria ser.

Essas questões tão em alta hoje como empoderamento, privilégios, intolerância, preconceito, respeito e empatia sempre foram debatidas, observadas, apontadas, detalhadas. Eu tive muita sorte.

Mas mesmo com tanta sorte também tive minhas dúvidas: se eu era capaz, se podia me equiparar, se eu merecia. Por isso acho maravilhoso envelhecer.

A confiança e a serenidade que vêm depois dos 30 é algo libertador. Nem saudade do meu corpinho dos 20 anos eu tenho. Eu gosto de envelhecer, de verdade.

Claro que comecei agora a tomar atitudes pensando já nos 60. Faço Yoga (quando consigo uma folga da minha chefa, que sou eu mesma), me alimento bem, me trato, mas principalmente trabalho com o que eu adoro, com o que faz o meu coração bater acelerado e me emocionar projeto a projeto.

Eu choro mesmo. Sozinha, escondida, meio rindo, meio nariz escorrendo, porque sei que não é fácil, mas quando vem o sentimento de realização e de estar sendo parte de algo é incrível. Transformador.

“Grandes alegrias também estressam”

Ana Morena em ação com o Camarones no Festival Do Sol 2018. Fotografia: Rafael Passos

Imagine o quanto o segundo semestre de 2018 e o começo de 2019 foram transformadores para mim.

Além de uma edição comemorativa dos 15 anos do Festival DoSol, de 5 edições mensais do Circuito Cultural Ribeira, do lançamento do disco “Marfim” do Talma&Gadelha e de tocar com o Camarones Orquestra Guitarrística num dos shows mais importantes da minha vida junto com o Tom Morello (Rage Against The Machine) para mais de 40 mil pessoas, ainda colocamos na rua dois projetos novos: o Fabuloso Festival (para crianças) e o Festival Pôr do Som (&DoSol), que foi uma feliz surpresa pelo baita sucesso de público e crítica no verão de Pirangi.

Muito desafiador, mas não acabou não. Ainda fizemos várias prévias de Carnaval da Orquestra Greiosa e dois dias do Pôr do Som (&DoSol) no carnaval de Pium.


Um amigo querido que mora longe, me mandou uma mensagem: “Você está bem? Vejo suas fotos, tá linda mas há algo nos seus olhos, tá tudo bem?”
 

A verdade é que estou um pouco cansada, talvez exausta, talvez entediada, talvez de saco cheio. Talvez, porque eu me dou o direito de estar.

Como diria minha mãe, “Grandes alegrias também estressam, Ana.”

E enquanto eu começo a pensar em vender meu baixo e ir morar em Fernando de Noronha, cai a ficha: estou há mais de três meses sem tocar, sem subir no palco.

Isso me lembra que a produtora que há em mim precisa desesperadamente da baixista para trazer o equilíbrio das energias, e a baixista, que sou eu, não sai de casa sem a produtora.

E aí tudo faz sentido. Lentamente, dentro de mim, aquela luzinha lá no fundo volta a brilhar, aquele formigamento, um suspiro, aquele rabinho balançando.

Representatividade

Em março, eu, a baixista, entro em estúdio para gravar um EP com o Camarones Orquestra Guitarrística. Ah, que saudades que eu estou do Camarones!

Ao mesmo tempo, também fui convidada para participar de um projeto incrível, o Rock de Mulher. São atividades em Natal, João Pessoa e Recife, shows, papos, oficinas, buscando fortalecer o trabalho das mulheres na música.

A representatividade nunca foi tão importante, e eu me sinto honrada em participar.

E foi por isso também que aceitei escrever uma coluna no Substantivo Plural. Eu avisei que não era escritora, que só sabia narrar as minhas experiências.

Perguntei à minha mãe: “Não é egocêntrico ficar só falando das minhas experiências? Sei lá, acho esquisito.”.

Aí mamãe (lembram da minha sorte?), sempre ela, respondeu: “Representatividade, Ana. Vai lá.”

Aí eu fui.

Produtora cultural, idealizadora do Combo Cultural DoSol e baixista da banda Camarones Orquestra Guitarrística. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 5 comments for this article
  1. Ana Cristina Cavalcanti Tinoco 11 de Março de 2019 23:11

    Excelente estreia. Parabéns.

  2. JANIA SOUZA 15 de Março de 2019 18:42

    Parabéns, Ana Morena! Maravilhoso texto. Continue. Falar de e sobre você ajuda as pessoas a conhecerem você melhor e compartilha suas desafiadoras atividades mostrando que é possível evoluir em qualquer área, principalmente naquelas em que se ama trabalhar. Gostei muito do conteúdo e da dinâmica do texto, prendeu minha atenção até a conclusão, porque eu queria saber mais. Essa é a magia do escritor, encantar o leitor e você conseguiu me encantar. Muito sucesso em tudo o que você faz! O ser tem necessidade de realizar e perpetuar-se através de sua obra. Mais uma vez, P A R A B É N S!!!!!!!!!!!!!!!

  3. Ana Morena 20 de Março de 2019 16:19

    Gente, brigadíssima pelos retornos. Fiquei muito feliz com o feedback, Espero que continuem por aqui acompanhando. 🙂

  4. Pamella 21 de Março de 2019 6:47

    Parabéns pelo seu incrível trabalho Ana!!

  5. Anna Penteado 21 de Março de 2019 13:54

    Parabéns Ana, adorei o texto e saber um pouquinho mais sobre você. Já admirava agora admiro mais. Beijos grandes e segue o conselho da sua mãe , elas sempre tem razão

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