CRÔNICA: Eu, um meio termo pop perdido nos extremos da Geração Y-Z

É uma crônica pessoal, alerto. E se há algo de radical está exatamente nessa assertiva, pois mais nada há de extremo em minha personalidade. Talvez o fato explique tamanho deslocamento nessa transição entre geração Y e Z. Nunca me senti fora de contexto na vida. Juro. Sempre fui aceito socialmente sendo um meio termo, sendo aquele cara despercebido por tudo e que amava os Beatles e também os Rolling Stones.

Na adolescência era escalado na quinta opção entre os 10 ou 11 do time de futebol e li livros medianos como O Mundo de Sofia e O Amor nos Tempos de Cólera e acho que os compreendi bem. Me interessava pelos livros de Nietzsche, mas não entendia tudo. E já desconfiava da qualidade duvidosa de O Alquimista e Diário de um Mago. Ou seja: um cara comum.

Cresci ouvindo pop, dos Beatles a Joni Mitchell. Um Guns’n Roses ou um Fear of the Dark aqui e acolá. E sempre me apaixonei por meninas da minha faixa. Entenda “minha faixa” como escala mediana de tudo. Isso após o fora de uma espécie de Mônica, da canção Eduardo e Mônica. Era demais pra mim. E passei então a mirar a beleza e atrativos medianos. Era mais confortável e seguro assim.

E meu trunfo sempre foi essa “medianidade”. Tinha os galãs tapados. E os tapados ricos. Aqueles que gostavam de Woody Allen, mas se pareciam com Woody Allen. Os fãs do Sex Pistols, que se comportavam como eles. Os feministas nerds. Os ideológicos radicais… E eu não era nada: nem galã, nem tapado, nem feminista, nem gênio… nada. Mas gostava de alguns livros e músicas e filmes, nada cult, de modo que, se eu me dava bem com alguém era mais pelo que eu não era.

Minha antipatia natural pelo radicalismo foi influência direta em minha primeira votação. Votei no PT justo porque não havia radicalismo ali. A barba do candidato de vermelho era meio sebosa, mas era um cara mais parecido comigo. Digo, com minha vida mediana, de classe média e tal. E até hoje permaneço socialmente nessa linha equatorial entre dois hemisférios.

Mas hoje, amigo leitor, se eu voto no barbudo, adentro um universo extremista até então desconhecido para quem nunca gostou de estereótipos. Se me posiciono contra o barbudo, idem. E assim, pela primeira vez sinto-me perdido em minha coluna do meio, no meu conforto existencial sem altos e baixos. Talvez pela falta de um meio termo entre as redes sociais e as redes de dormir.

Mas sigo firme. Tento me encontrar nos filmes de Tarantino, nos livros de Nick Hornby. Continuo ouvindo Beatles e à procura de algo bom dessa geração; talvez Lucas Arruda. Sempre passeando no pop – aquele estilo de música mediana, nem cult nem alienada. O pop – romântico, sobretudo – se situa tão no meio que lhe transporta a algum lugar do passado, quando o hit pegajoso rememora aquele amor adolescente, e também ao futuro, imaginando, ao som de um pop poderoso, que aquela garota no balcão pode lhe salvar da solidão do mundo.

Mas confesso: me tornei pouco atraente às garotas sendo averso aos ditames das redes (sociais!). Até tenho medo de soltar uma cantada daquelas medianas e ser taxado de machista. Talvez eu tenha me perdido junto com o pop. É isso. Há uns 30 anos o pop deixou de destacar a música. E vai ver eu, quase na meia idade, tenha deixado de existir um pouco. Quem sabe em alguns anos eu seja salvo por Katy Perry? Sei lá, o mundo evolui (?). Talvez seja mais fácil o barbudo, agora com a barba bem cuidada, voltar à classe média.

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

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