Eu vi a cara da morte

Amarguei-me do amargor das velas e da ladainha das carpideiras. Aquela morte ia ser o vigamento da minha alma, mas eu ainda não sabia. A primeira morte que eu via, morte de cuja defunta eu também vira o rosto, ainda vivo, arfando sob lençóis brancos. Ali eu descobrira a palavra estertores e a palavra agonia, defronte àquela morte caseira, que atraía os passantes. Eu também era passante, e era colegial, dois adjetivos paralelos naquele tempo, porque, saída do colégio, eu ficava a zanzar pela cidade. Eu era passante atraída pela morte exposta, acuada pelo desconhecido, emboscada pela curiosidade. Vi-me no meio da sala, entre mortalha preta, velas, flores, carpideiras e uma filha copiosa: inerências da morte me explicitando a morte.

Antes, muito antes, quando pela primeira vez ouvi a palavra morte, associei-a a um túnel escuro, muito comprido, muito distante. A morte era algo ruim que me aconteceria, mas seria dali a tanto tempo, tanto tempo, me diziam… Eu não tinha com o que me preocupar. O meu pouco tempo de vida não me deixava ainda compreender o tempo, ele também era um túnel escuro e distante e aquele era um dia de Natal, guarnecido de barcos. Tive medo de tocar um embrulho colorido que havia sob a rede na qual eu dormira. Rede, redinha, praia da redinha… A memória é quebradiça, mas eu me lembro de ter sido menina obediente até então; apressei-me a devolver o pacote antes que pensassem que fora eu a pegá-lo. Mas ele era de fato meu, disseram, era um presente. Calhou de eu descobrir Papai Noel no mesmo dia em que descobri a palavra morte.
Eu vi a morte do bêbado. Eu vi a morte aguada do bêbado que morrera de cirrose. Ali encontrei a palavra cirrose. Havia baldes espalhados ao redor do cadáver, com muita água, para amainar a ardência das velas e disfarçar o odor deletério. E para acalmar o calor que fazia naquele sertão em toda parte. Se Dostoievski visse aquilo… Mas fui eu a ver o que se oferecia à escrita, então… No máximo escrevinhação. E o morto inchado, líquido e liquidado na tarde fermentada que me engasgava.
Os enterros atravessavam a cidade e o sino dobrava para anunciá-los. Por muito tempo, os sinos foram para mim sinais de mau agouro, como as corujas rasga-mortalhas. Estas se escondiam nas telhas do auditório do colégio, e de vez em quando passavam com seus rasgados pios. Daí a pouco uma notícia de morte também rasgava a vida colegial.
A moça morreu de acidente de carro. Ali eu signifiquei a palavra acidente. Seu braço pousava sobre a maca, era só o que dava para ver, por uma fresta na ambulância. O braço inerte antes tocara violão. A moça passional fazia nos antigamentes serenatas pela madrugada, isso eu vira. Mas não vi sua cara morta, pois estava coberta.
Mas a cara da morte está sempre viva, amargando, assombrando. Uns avisam que vão morrer. Outros acordam, morrerão hoje e não sabem, como no poema de Drummond.
A aliança do piloto, encontraram junto com pedaços de vidro do avião. Tinha um nome gravado; noiva ou esposa, não seria mais. O avião, seus dois ocupantes e a caatinga escassa eram tudo uma queimada rendida à fatalidade. Eu estava no grupo escolar e não vi, só soube daquela morte que pôs em polvorosa a aldeia. Entendi a palavra aliança.
Meu avô morreu pouco depois. Eu chorei a palavra amor.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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