Europa

Cena de Eastern Boys (2013), de Robin Campillo

Por Bernardo Carvalho
BLOG DO IMS

Eastern Boys (2013), do franco-marroquino Robin Campillo (roteirista de Entre os Muros da Escola), não entrou em circuito comercial no Brasil, mas pode ser comprado ou alugado entre as dezenas de opções gay-soft que de um tempo para cá invadiram as listas de lançamentos em DVD e os sites de comercialização de filmes na internet. Eastern Boys não tem nada de soft e muito menos alguma coisa a ver com dramas românticos de segunda categoria dirigidos a espectadores gays carentes de representação. É um filme autoral e de um autor disposto a se embrenhar em uma zona radical de desconforto, de onde não se sai ileso.

O filme não se propõe a fazer uma alegoria da Europa, mas é impossível não cair na tentação de interpretá-lo assim, ainda mais hoje, diante do horror de um continente apavorado, encurralado e paralisado pela tragédia dos fluxos migratórios que de certo modo ele próprio ajudou a criar com as guerras no Iraque e na Líbia.

Um grupo de imigrantes ilegais da Europa oriental, basicamente da Ucrânia e do Cáucaso, circula pela Gare du Nord, em Paris. A câmera começa por observá-los à distância e aos poucos vai se aproximando, até nos vermos entre eles. A gangue de jovens se encontra diante da estação, invade o saguão, como predadores à procura de presas entre os passageiros, e se dispersa à primeira aparição de um batalhão da polícia. Passam os dias ali, em uma coreografia sem diálogos, que dura toda a parte inicial do filme dividido em quatro capítulos.

A certa altura desse movimento, um homem de meia-idade, típico funcionário de empresa, com pasta a tiracolo, entra na dança, nota um dos rapazes, se encanta por ele e o segue. Os dois se encontram num canto da estação. O rapaz não fala francês. Propõe ir à casa do cliente, em inglês. O cliente, já cego pelo desejo, cede e entrega o endereço ao rapaz, enquanto o espectador de bom senso segue repetindo em silêncio: não! não!, perplexo com a ingenuidade do personagem. Os dois combinam um preço, marcam para o dia seguinte. É o desastre anunciado. A armadilha está pronta.

No dia seguinte, não é o rapaz quem bate na porta do homem de meia-idade, mas um menino da gangue, menor de idade. Quando o cliente tenta impedi-lo de entrar, ele força a passagem e ameaça denunciá-lo por pedofilia. Em instantes, o menino já se tornou senhor da casa e está abrindo a porta para o resto da gangue, que toma o apartamento de assalto e faz a festa, literalmente, enquanto o proprietário observa tudo, impotente e imóvel. É uma cena medonha de humilhação.

Depois de desafiarem o dono da casa, de beberem suas bebidas, dançarem e se esmurrarem, os rapazes passam ao desmonte do apartamento. Levam tudo, como empregados eficientes de uma transportadora, deixando o homem sozinho em sua casa depenada, com garrafas vazias e copos quebrados entre as fotos de sua história afetiva e familiar espalhadas pelo chão. A passividade e a resignação com que ele acompanhou a pilhagem não têm em princípio outra explicação além de um traço masoquista de personalidade, com o qual nenhum espectador quer se identificar. Tudo muda de figura quando o rapaz que ele havia visto na estação de trens e por quem havia se interessado originalmente, o rapaz que o traíra, reaparece sozinho, nos dias seguintes, querendo transar. E aí a personalidade do francês de meia-idade ganha uma perspectiva bem mais complexa e inesperada, estabelecendo com o outro, com o estrangeiro que o traiu, uma relação que não deixa de ser uma lição de humanidade. É o desejo que permite transformar a relação a princípio mercantil em uma relação entre duas pessoas. E, num segundo momento, quando o desejo acabar, em uma relação de solidariedade. É essa a maior generosidade do filme.

É claro que essa transformação pressupõe um alto risco. Mas é um risco que está embutido na própria condição desse homem, burguês e gay de meia-idade, que vive sozinho nos limites de Paris, mas não está disposto a abrir mão do desejo. É aí que muda a compreensão do que parecia simples passividade e resignação e o espectador percebe o paradoxo do que está em jogo: a vulnerabilidade é a consequência de estar vivo (e de querer viver).

É aí também que o personagem do gay de meia-idade passa a representar um antípoda da Europa, esse mundo paralisado entre defender até a morte uma suposta integridade ou optar pela vida, sob o risco da vulnerabilidade e da transformação que toda vida pressupõe. Pode parecer uma associação demasiado fácil ou forçada – e talvez seja mesmo –, mas é significativo que, no filme, a experiência do desejo (a possibilidade do encontro e do reconhecimento, como iguais, entre duas pessoas de mundos completamente diferentes e em princípio incompatíveis) acabe reconfigurando os papéis e a própria ideia de família e de integridade, possibilitando a integração e a convivência com o outro. Seria romântico se não houvesse aí um percurso de violência e de dor que ambos têm de atravessar e ultrapassar para continuarem vivos. E, mais que isso, para continuarem vivendo com tudo o que isso tem de paradoxal.

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