Ex my love: a renascença do brega

A música da abertura da novela Cheia de Charme, da rede Globo, é um achado. Além das comparações absurdas feitas em nome da “pessoa abandonada”, o refrão que a primeira audição se escuta “is my love” do inglês é, na verdade, a internacionalização do termo ex-amor. Ao invés do verbo “is”, a compositora Gaby Amarantos utiliza o prefixo “Ex” e complementa com o possessivo e o substantivo do inglês para gerar o inusitado e criativo “ex my love”. Esse tipo de construção não só retoma, mas também reinventa o brega, que, embora esteja apagado da nossa região, continua com força total no Norte, sobretudo no Pará, com o tecno-brega.

A novela, que tem um dos melhores repertórios entre os programas populares da TV brasileira, fortalece a retomada da música brega que anda disfarçada nas letras de muitos eruditos. Não são apenas as músicas interpretadas pelos protagonistas. A trilha sonora da novela é toda construída com esse repertório popular, embora parte seja interpretada por revelações Cult da MPB, como é o caso das cantoras Tiê, Tulipa Ruiz e até Fernanda Takai, que só emprestam uma interpretação, digamos, mais chique.

O brega nunca vai acabar. Embora sintamos falta na mídia de figuras incomparáveis como Bartô Galeno, Carlos André, Fernando Luis, Odair José, Marcio Grayke e tantas outras estrelas que continuam se apresentando para um público específico, ele sobrevive. Gênios da música entendem a força desse gênero, por isso, se utilizam dele direta, como foi o caso de Caetano Veloso com a regravação de Você não me ensinou a te esquecer, de Fernando Mendes, ou indiretamente como fez Chico Buarque com Folhetim e Sob Medida. Na verdade, ambos não abrem mão de inserir em seus discos composições que repetem o teatro da música chorosa. A música Todo errado, de Jorge Mautner, é outro exemplo disso: “Psicótico, neurótico, todo errado/Só porque, eu quero alguém/Que fique vinte quatro horas do meu lado/ No meu coração eternamente colado”.

A teledramaturgia, que sabe bem como utilizar esse recurso sonoro, não se arrepende do investimento. Na atual novela das seis, Amor eterno amor, os diretores musicais resgataram do fundo do baú a música Everything I Own, de David Gates e gravada pela banda Bread em 1972, e que no Brasil vendeu milhões de cópias através da tradução Tudo que eu tenho, interpretado pela inesquecível Diana. A própria abertura dessa novela traz uma das mais lindas composições da atualidade: Ainda Bem, da também prolecult Marisa Monte.

O que determina a música brega não são exatamente os termos utilizados, mas o poder de sofrimento das letras que excedem o kitsch. O amor doentio ou o desprezo em excesso. Entretanto, há peças que são verdadeiras poesias e que aparecem como trilha sonora de todo momento sofrível de amor, como as várias composições da era de ouro de Roberto Carlos, de Gessé, Antônio Marcos e outro bocado. Nossos sentidos dependem desse lamento contraditório musical para se sentir pior ainda no degredo.

Mas é preciso ter cuidado. A música brega não pode ser confundida com as várias composições que denigrem a alma feminina, nem com as letras comerciais feitas sem qualquer atenção poética ao ouvinte e a própria MPB. Afinal, não dá para roer ouvindo Eu quero tchu, eu quero tchá/ Eu quero tchu tchá tchá tchu tchu tchá/Tchu tchá tchá tchu tchu tchá.

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 8 comentários para esta postagem
  1. Lívio Oliveira 10 de maio de 2012 9:21

    Paiva, sem problema. Imaginei que fosse isso.

    Ei, Paiva, se você conseguir o telefone do Bartô, ou mesmo o e-mail, mande, schifaizfavoire, para o meu endereço eletrônico:

    livioliveira@yahoo.com.br

    Tô pensando, mesmo (é sério), numa diária de fim de semana num hotel ou pousada qualquer de Mossoró para fazer a tal entrevista. Levarei máquina fotográfica e um bloquinho de anotações e, talvez, um pequeno gravador. E já convido você (evidentemente), David Leite e Clauder Arcanjo (e quem mais quiser) para esse grande evento.

    Ah! Um engradado de cerveja, pelo menos, será por minha conta. Ok?

  2. José de Paiva 9 de maio de 2012 23:56

    Lívio, perdão pela ausência. Sumi do mundo mesmo. Acho que também cometi um pecado esquecendo o Carlos Alexandre – embora não o esqueça nunca. E sim, o Bartô mora aqui em Mossoró e não é difícil entrevistá-lo, principalmente se tiver tanta cerveja. Abraços.

  3. Lívio Oliveira 1 de maio de 2012 15:09

    Na minha infância eu gostava de imitar dois caras: Elvis Presley e Genival Lacerda.

    É verdade. Não riam.

  4. Lívio Oliveira 1 de maio de 2012 14:19

    Digo: “O cinema… tem um pouco dessa mistura.”

  5. Anchieta Rolim 1 de maio de 2012 13:15

    J. Paiva meu irmão, beleza de texto. Massa!

  6. Lívio Oliveira 1 de maio de 2012 12:26

    Dizem que o Bartô Galeno (paraibano, de Souza), outro dos meus ídolos no mundo brega, está morando em Mossoró já há algum tempo. Procede, Paiva? Taí um cara que eu gostaria de entrevistar diante de uma grade de cervejas geladíssimas e uma boa radiola de ficha.

  7. Lívio Oliveira 1 de maio de 2012 12:15

    Achei interessante o texto. Penso que alguns elementos do kitsch/ brega estão mesmo sendo renovados, retrabalhados, recriados. O cinema de Almodóvar e de Tarantino têm um pouco dessa mistura. Só fico chateado quando não citam o meu ídolo Carlos Alexandre…

  8. Marcos Silva 1 de maio de 2012 5:24

    Nunca entendi direito o que chamam de brega. Música de lágrimas, que corresponde ao melodrama cinematográfico? Vale lembrar o que Buñuel fez com o melodrama em cinema – O anjo extermiandor é o que há de beco sem saída reflexivo, excelente.
    Se for pra falar em brega, entendo que Odair José é uma coisa, Falcão é outra. Algumas canções do gênero abordam dimensões viscerais da vida mesmo (amores, morte, pobreza), nenhuma relação com a idéia de “mau gosto”.
    Na música que esse texto comenta, gosto da expressão “ex-my love” e da rima com “1,99”. A sonoridade não está à altura desses achados textuais, todavia.

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