Ex_Machina e a metáfora da mulher-robô

A escritora norte-americana Ursula K. LeGuin, lá nos anos 1970, já nos alertava para o que realmente importava para a transformação que a ficção científica vinha sofrendo desde os anos 1950, quando deixava cada vez mais de ser uma típica leitura ‘escapista’ para se embrenhar na complexidade das relações humanas mediadas pela tecnologia: a ficção científica não preocupa em descrever o futuro, mas em discutir o presente.

(O texto não é literalmente este, por isso indico a leitura do já clássico texto de introdução da autora para seu romance ‘A Mão Esquerda da Escuridão’, no qual ela discute essa ideia.)

É impossível não pensar nesse lema ao assistir ao excelente filme Ex_Machina: Instinto Artificial (2015), longa de estreia do roteirista Alex Garland como diretor. Além de ser uma experiência visual de primeira, como deve ser o bom cinema (um apuro premiado com o Oscar por efeitos visuais), impressiona qualquer um a quantidade de temas relevantes ao nosso cotidiano colocados na mesa para discussão – ainda que só de passagem.

O enredo é simples: Caleb (Domnhall Gleeson), empregado de uma gigante da tecnologia, é sorteado para passar uma semana no laboratório pessoal do fundador da empresa, Nathan (Oscar Isaac). Lá, ele é apresentado ao projeto secreto da empresa, Ava (Alicia Vikander), um(a) robô com uma avançada inteligência artificial. A missão de Caleb é: em uma semana, ele pode definir se Ava é uma inteligência artificial boa o suficiente para passar no famoso ‘Teste de Turing’?

Já ouviu falar no Teste de Turing? Tudo bem. Não sou especialista em teoria da computação, mas vou tentar explicar. Basicamente (e reforce bem esse basicamente), o Teste de Turing defende que, se você conversa com uma máquina e em nenhum momento consegue perceber tratar-se de uma máquina, essa inteligência artificial pode ser considerada igual a uma inteligência humana.

(O teste foi proposto em 1950 pelo britânico Alan Turing, um dos pais da computação contemporânea, no clássico artigo ‘Computing Machinery and Intelligence’ http://www.loebner.net/Prizef/TuringArticle.html . É nele que surge o famoso termo ‘o jogo da imitação’, que deu título a uma cinebiografia de Turing também muito boa – fica a dica.)
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A partir desse enredo simples, o filme começa a desfiar várias questões correntes em nosso cotidiano depois da difusão das tecnologias digitais. A primeira discussão é sobre a privacidade nos tempos digitais.

A empresa em que Caleb trabalha é uma paródia ao Google: um conglomerado que mapeia e armazena informações de usuários da rede em todo o planeta, criada por Nathan quando este era ainda adolescente. Ele seria uma espécie de Mozart da computação: alguém que já era bilionário antes de chegar à vida adulta. Mas também cercado por uma aura de mistério e de desconexão com a vida social comum a muitos gurus digitais do Vale do Silício – enfim, um esquisitão capaz de deixar Steve Jobs no chinelo.

Isso termina por colocar a discrição e a privacidade no primeiro plano da narrativa visual. Para construir seu complexo de pesquisa, Nathan adquiriu uma área de floresta gigantesca, acessível apenas após um demorado voo de helicóptero, que só pode ser acessada a pé, junto ao leito de um rio. Tudo para evitar a aproximação de estranhos e manter segredo sobre o projeto.

Da mesma forma, Caleb é submetido a um contrato de confidencialidade pior do que o do elenco de Game of Thrones. Ele pode até entrar para a História, mas ninguém jamais ficará sabendo disso. Durante a semana em que ficará nas instalações do laboratório, ele também ficará impossibilitado de realizar qualquer contato com o mundo exterior. E todos os movimentos dentro do laboratório são seguidos por várias câmeras de segurança.

A maneira como o diretor Alex Garland nos exprime toda essa opressão é muito criativa. No começo do filme, Caleb está num cybercafé, recebendo a notícia de sua seleção para o projeto. O ambiente é fechado, a câmera está sempre muito próxima do personagem, a iluminação é artificial e difusa, sendo o brilho da tela mais intenso do que o do ambiente.

No laboratório, é do parecido, porém pior. Os corredores são estreitos, assépticos, sem decoração alguma. O teto é baixo. A luz amarelada. Não há sequer diferença entre a porta e a parede – as portas não possuem maçanetas. Os quartos não possuem janelas. As tevês só transmitem imagens de outros recintos do laboratório.

Em contraposição, Nathan tem acesso a aposentos com paredes de vidro, que possibilitam a vista da natureza ao redor e, fugindo ao estereótipo do cientista cabeçudo, é adepto de práticas esportivas. Fica logo tudo muito claro ao espectador: Caleb é apenas mais um dado do experimento, um rato no labirinto do cientista.

A situação se complica quando somos apresentados às personagens femininas da trama. Ava, o protótipo-robô de inteligência artificial, e Kyoko, a assistente de Nathan. Ava “vive” isolada num dos aposentos – durante a semana ela terá um encontro por dia com Caleb, de curta duração, durante o qual eles poderão interagir e ele deverá avaliar se ela consegue passar no teste de Turing – ou seja, se passar por humana. Kyoko é uma presença fantasmagórica: durante todo o filme, ela não fala, apenas transita pelo laboratório em roupas mínimas e serve de companhia a Nathan – às vezes companhia íntima.

As interações entre Caleb e Ava retomam um tropo introduzido na literatura por E. T. A. Hoffmann em 1816 no conto ‘O Homem de Areia’ (Der Sandmann): o da mulher-robô. No conto clássico, um narrador conta a um cunhado seu suas desventuras após conhecer a filha de um inventor recém-chegado a sua vizinhança. Intrigado pela natureza enigmática da moça, ele termina por se apaixonar por ela, mas, ao descobrir que na verdade ela é um autômato criado pelo inventor, termina por enlouquecer.

No caso de Ex_Machina, há uma ligeira modificação. Caleb sabe que Ava é um robô. O que o intriga desde o começo – e terá consequências avassaladoras na trama – é saber se ela realmente constitui uma consciência autônoma, uma personalidade, um self – ou se apenas ela se trata de uma programação muito bem feita.

Há, aqui, duas posições distintas do homem em relação ao papel feminino. A primeira, que movimenta a arte há alguns séculos, trata do “mistério” que envolve a “natureza feminina”. A ideia do inescrutável que ronda a presença feminina se transfere para o autômato já a partir da escolha tomada por seus criadores de o desenvolverem na forma de mulher (ora, e se isso não corroborar a ideia de que a construção do gênero é social, não sei mais o que o fará).

A segunda é mais impactante: a reificação cada vez mais escancarada da mulher na sociedade contemporânea (o pessoal dos estudos de gênero prefere o termo “objetificação”, mas eu acho o conceito marxista mais redondinho pra esse caso). Quanto mais humana Ava parece a nossos olhos, mais somos lembrados de que ela não passa de uma máquina. E quanto mais tratada como uma máquina, mais nos parece que ela é tratada como uma mulher o seria em várias situações do nosso cotidiano.

Aliás, o próprio fato de chegarmos a cogitar que Ava possa ser, de fato, humana – e a trama nos leva cada vez mais a crer que sim – é um indício do quão desumanizados nos tornamos frente ao próximo – especialmente quando o próximo, na verdade, é a próxima.

Quando tudo, no final, dá merda – porque sempre dá merda mesmo – nos tocamos que os protagonistas são os vilões. Afinal, como seria possível um misantropo paranoico como Nathan reproduzir artificialmente a consciência humana – se ele próprio nos parece incapaz de tê-la? Ou Caleb de mostrar alguma maturidade emocional para julgar a humanidade de outro indivíduo (ainda que este indivíduo seja uma máquina)?

Por fim, ficamos com uma última metáfora, a da emancipação feminina, ou o tal “girl power”, através de uma subversão do mundo masculino que as subjugava pelo uso dos mesmos instrumentos de opressão: a força e o conhecimento.

Um filme para se colocar na fila de novos clássicos.

**
P.S.: Pra quem é do ramo da ficção científica, ainda tem como bônus uma citação a Isaac Asimov na tecnologia que permite o desenvolvimento do cérebro dos robôs. Show.

Jornalista, com passagem por várias redações de Natal. Atualmente trabalha na UFPB, como editor de publicações. Também é pesquisador de HQs e participa da editora Marca de Fantasia, especializada em livros sobre o tema. Publicou os livros “Moacy Cirne: Paixão e Sedução nos Quadrinhos” (Sebo Vermelho) e “Moacy Cirne: O gênio criativo dos quadrinhos” (Marsupial – reedição revista e ampliada), além de várias antologias de artigos científicos e contos literários. É pai de Helena e Ulisses. [ View all posts ]

Comentários

There are 3 comments for this article
  1. Pedro Vitiello 5 de Maio de 2016 15:23

    Alex, se tiver tempo e paciência, dá uma olhada nos textos de Donna Haraway, em especial Cyborgs, simians and Women.

    Ela é uma das pensadoras da Antropologi Cyborg, dos anos 80, e faz analises interessantes.

    Abraços e excelente texto.

  2. Alexandre Carvalho 5 de Maio de 2016 15:48

    é um filme que sempre adiei, mas depois desta analise, subiu para o topo da lista, obrigado Alex.

  3. Alex de Souza 6 de Maio de 2016 10:22

    Oi, Pedro, Conheço sim os textos da Donna Haraway – indiretamente, muito do que falo neste texto é influenciado pelo que ela escreveu. Abraço.

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