Excessos eleitorais e o Sísifo de Ticiano

Amigos e amigas:

Fui aluno, na pós graduação, de Maurício Tragtenberg, sociólogo paulista infelizmente já morto. Ele conhecia muito bens tradições do pensamento de esquerda (inclusive, os múltiplos anarquismos) e conseguia dialogar com todas de uma maneira inteligente, crítica e sem desrespeito. Uma lembrança dele é a definição das eleições em nosso mundo: disputa por privilégios e cargos – poder burocrático, quem deterá a chave do cofre público.

As atuais eleições brasileiras exageram nessas facetas que Tragtenberg assinalava. Há um deserto de propostas que chega a ser acintoso. Excetuando acusações recíprocas de gente que finge que não leu “O príncipe”, de Maquiavel, com sua tese central de que a principal tarefa do príncipe é cuidar do próprio poder (adeus, visão benevolente dos governos mas restam os cidadãos, que ultrapassaram o nível de súditos), faltam sugestões politicamente dignas de ações nos cargos para os quais a imensa maioria se candidata. E falta respeito aos cidadãos, convidados, quase sempre, à plácida atitude bovina. Não leram “Conversa de bois”, de Guimarães Rosa: tem hora em que os animais derrubam o carreiro.

Votarei, prefiro não anular meu voto. Mas é duro. Pescar os menos ruins é tarefa de Sísifo – tem um quadro grandão de Ticiano, sobre esse personagem mitológico, no Museu do Prado, que deveria ser visto por todas as pessoas do mundo ao menos uma vez na vida, de preferência ao vivo, levando em conta a escala da obra.
Nossos partidos andam aos frangalhos, convites à refundação ou ao fechamento puro e simples. Alguns antigos ídolos estão com mais rugas no pensamento que na face – rugas faciais, às vezes, são muito bonitas mas pensamento enrugado e enganoso é um porre.

Faço grande esforço para pensar que a política detém alguma dignidade – tema de Hannah Arendt, bem exposto por Celso Lafer na apresentação do grande livro dela “Entre o passado e o futuro”. A maioria dos políticos, ávidos prioritariamente pelos cargos e privilégios, dificultam enxergar aquela dignidade.
Enfim, citando de memória Anne Frank, eu ainda acredito nos seres humanos.

Tácito: será que vc consegue reproduzir da wikipedia (ou de outra fonte on line) o Sísifo de Ticiano para embelezar estas tristes considerações?
Abraços:

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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