Exercício textual exemplar de uma publicitária

A Um Passo da Eternidade, cena entre Deborah Kerr e Burt Lancaster

A seção “gente que pensa” (admitida a hipótese de que as há não pensantes) da revista Palumbo tem trazido a público interessantes reflexões, haja vista que é uma coluna sem assinante fixo. Isso tem pelo menos uma vantagem muito evidente: garante uma variedade de estilos e de assuntos não encontráveis numa coluna fixa. Pode, todavia, apresentar alguns inconvenientes, caso o desempenho do eventual assinante não corresponda ao fim colimado.

A “gente que pensa” da edição de agosto passado da Palumbo traz um interessante texto da publicitária Larissa Gabriele, intitulado: “O difícil exercício em definir o amor”, e que revela um pouco das observações feitas acima. Antes de atacar o assunto em mira (que, como informa o título, é um difícil exercício), a publicitária se cerca de uma parafernália de coisas ensurdecedoras: televisão, som e computador ligados simultaneamente. No entorno, papéis de chocolate, um envelope de medicamento sonífero, um resto de bebida numa taça e, finalmente, uma constatação da pensadora: “a questão do amor é uma vulgaridade, um lugar-comum, um dos clichês mais usados na terra”. E sem dar pausa para que o leitor reflita sobre tão grave afirmativa, emenda com visível desembaraço: “e não existe um único ser humano que, chegado à idade das razões e (des) razões, não tenha dedicado ao tema uma boa quantidade de pensamentos”.

De início, uma grande dificuldade para o leitor: qual o vínculo (se algum) entre o difícil exercício em (eu quase escrevia de) definir o amor e o ambiente doméstico da publicitária? O fato de que ela tenha deixado transparecer que estava com dificuldade para conciliar o sono tem a ver com a dificuldade inicial enfrentada com o assunto escolhido? Mas como Larissa Gabriele não torna a relacionar, no seu escrito, amor e barulho (ou insônia, fome ou sede), fica impossível extrair qualquer relação entre os assuntos relacionados.

Mas, por que razão o tema escolhido pela publicitária é tão infenso a definições? E por que seria uma vulgaridade capaz de chamar a atenção de quem quer que tenha atingido a idade da razão?

Definir conceitos não parece ser o forte de Larissa, publicitária. Afirmar opiniões, sim. Por exemplo: “o amor continua sendo uma matéria obscura, o reino da confusão e do enigmático […]. Quando se fala em amor as dificuldades já começam no princípio, na hora de definir o próprio alcance da palavra”.

Talvez a explicação para o sentido tortuoso que a publicitária Larissa imprime a seu texto seja que o faz intencionalmente. Na medida em que embaralha ideias e clichês em torno do que seja amor, ela acredite que ajude a demoli-lo. Quem sabe, seja partidária de que esse é um sentimento nocivo à vida social, à boa ordem burguesa. Quem sabe, ainda, é partidária das ideias contidas no livro “Contra o amor”, de Laura Kipnis.

Em contrapartida, Larissa Gabriele não esconde suas simpatias pela paixão, deixando transparecer que este “é um dos poucos sentimentos que quando nos domina, nada nos move, nem nos faz parar”. Outra vantagem da paixão: é uma espécie de válvula de escape que nos permite “nos evadir de nossa asfixiante individualidade”.

Diante de tantos circunlóquios impedindo que o texto se aproxime de seu foco, o entontecido leitor poderá se perguntar: trata-se de um contraponto entre amor e paixão? Então não tem a ver com as dificuldades de definir o amor, como está no título? Seria o caso então de supor que a publicitária pôs o título antes de começar o texto e depois derivou-o para outros propósitos, apostando, talvez, como no filme de Woody Allen, que “tudo pode dar certo”?

Se “a arte de escrever consiste, antes de tudo, em fazer-se compreender”, como o entendeu o pintor Delacroix, o texto de Larissa Gabriele peca por obscuridade, imprecisão, e ainda pelas muitas lacunas que deixa atrás de si, como fragmentos descartáveis que ficaram, por descuido, no texto final. Enfim, gente que pensa a publicidade às vezes não o pensa na igual medida outras modalidades de escrita. Esta é uma das possíveis lições que se extrai do exemplar exercício textual de uma publicitária.

Jornalista, escritor e crítico literário. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 6 comentários para esta postagem
  1. João da Mata 27 de setembro de 2010 10:46

    Jarbas, Amigo

    Cadê a sua lista?

    Tudo isso é culpa daquela turma de 40!!!! ( rs rs )

    Ainda vou escrever sobre isso

  2. Jarbas Martins 27 de setembro de 2010 9:38

    Tem mais, amigo DaMatta, teu nome também é grifoso (da maneira como o escrevi).Parece até marca de sabonete.Popificaram Natal.É tudo midcult, masscult.Valha-me Umberto Eco.

  3. Jarbas Martins 27 de setembro de 2010 8:48

    Tente a Palumbo, DaMatta.Revista grifosa, com nome que parece etiqueta de camisa pólo.

  4. João da Mata 27 de setembro de 2010 8:22

    Jajá, Amigo

    Coloque aqui a sua relação de livros, bem humorada. Prometo comentar e não faço como muitos.

  5. racine 26 de setembro de 2010 9:18

    Perfeitas suas observações sobre o texto da tal publicitária Larissa. Se em Natal gente que pensa é desse jeito, estamos perdidos, Nelson.

  6. Jarbas Martins 25 de setembro de 2010 20:46

    Sabe de uma coisa, brother ? O que falta ao pessoal da Palumbo é
    humor. Há alguns meses, pediram-me uma lista de livros fundamentais da nossa literatura.Prontamente atendi a solicitação, e a enviei. Talvez pelo fato do meu escrito ter sido redigido num estilo jocoso, meio irreverente, não o publicaram.Esse preconceito contra o estilo joco-sério, ou coloquial-irônico, como definiu o norte-americano Edmund Wilson, está muito entranhado na cultura da elite bem-pensante do Brasil.Exceções, claro, existem.Aqui mesmo em Natal e arredores. Justifico e dou fé.Tenho postado artigos e comentários aqui no SP, no site de Mario Ivo e no Bar do Papo Furado, e posso lhe assegurar que jamais houve, da parte do Tácito, Mario Ivo ou Jairo Lima,qualquer restrição à minha franciscana irreverência.Se vivo fosse o genial bufão, que era o Oswald de Andrade, jamais apareceria na coluna “Gente Que Pensa” da Palumbo.Ao definir o amor, num poema, ele debochadamente usou apenas esta palavra: humor.Querem mais ?

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