E aí, existe literatura feminina?

O machismo está enraizado na sociedade – herança paleolítica, aos poucos, extirpada pela evolução da espécie. Mas algumas expressões ditas feministas ainda soam difícil. Uma delas é a tendência da chamada Literatura Feminina. O termo é controverso mesmo para algumas escritoras e defendido com unhas pintadas e dentes por outras.

No último mês de agosto pude presenciar debate sobre o tema. As escritoras Marta Barcellos e Sheyla Smanioto foram convidadas do Sesc para uma mesa no Festival Literário da Pipa (Flipipa). Mediei o debate com alguns cuidados prévios, para não transgredir meu papel de mero mediador. Mas aqui posso dar uma opinião.

Marta e Sheyla são amigas. Ou tornaram-se após debaterem o tema em outros tantos eventos literários a convite do Sesc, já que foram premiadas como melhor livro de Conto e Romance, respectivamente. Mas amizade à parte, a opinião das duas sobre o tema diverge.

Pelo tempo passado do evento, não lembro com precisão os argumentos de cada uma. Mas em suma, Marta defendia que a classificação de Literatura Feminina diminuía o valor do livro aos olhos do machismo e também reforçaria a segregação dos papeis entre homens e mulheres.

Já a Sheyla – autora do excelente Desesterro – defendia essa tendência justo para reforçar a luta das mulheres em vencer o preconceito, para mostrar que a mulher tem seu valor equiparado e se orgulha em produzir uma Literatura Feminina, não necessariamente Feminista, não necessariamente escrito para mulheres.

Sou contra o termo. Concordo com a segregação desnecessária. E se discordo do termo Literatura Feminina, acredito também que mulheres têm produzido uma literatura com viés feminino, com descrição de seus dramas, cotidianos e vivências, sem descambar ao panfletário feminista, em defesa de causas, etc.

Foi, inclusive, o que ambas fizeram com seus livros. E vejam que o Prêmio Sesc deste ano bateu recorde de inscritos e apenas um terço foi de mulheres, e pela primeira vez escritoras venceram essas categorias. E ainda mais com esse conteúdo, como disse, voltado ao comportamento feminino. Achei muito emblemático, sintomático.

Claro, quando se descreve personagens se veste a roupa de cada um, seja homem, mulher, gay, animal ou uma árvore falante. Mas acho que um ginasta descreveria melhor a vida de um ginasta. Um boia-fria descreveria melhor a dureza do seu dia-a-dia, por mais pesquisa que um escritor possa fazer a respeito desse cotidiano.

Nesse sentido, acredito que mulheres possam produzir um conteúdo mais personificado, mais detalhado, mais sensível quando o personagens integrar o universo feminino. E talvez pelo momento de feminismo em alta, esse tema tem sido mais presente na literatura. Ainda assim, não se pode classificar como literatura de gênero, ao meu ver.

Advogando contra meu próprio argumento, posso comparar a discussão das cotas para negros nas universidades. A principal defesa desse sistema é a reparação histórica de segregação racial. Ora, se mulheres não foram escravas ou sofreram os horrores do preconceito contra a raça, também foram/são discriminadas. Então, por que não Literatura Feminina, por que não cotas de mulheres em eventos literários, premiações, etc?

Esse é apenas um argumento contrário. A discussão é pertinente. Fato concreto é que o preconceito persiste, seja nos espaços destinados às mulheres em eventos literários, seja na avaliação do conteúdo por editores, no juri de concursos literários, etc. Realidade em mudança, concordo, mas ainda presente.

Até lembro ter perguntado à Marta o porquê de haver preconceito contra mulheres escritoras e não contra mulheres jornalistas (ela é jornalista conceituada). Ela retrucou, dizendo que havia também. Não sei se há; não senti isso em meus 11 anos de redação. Mas concordo que quem sofre enxerga melhor um preconceito às vezes sutil. E temos inúmeras jornalistas ocupando espaços merecidos, mas bem poucas escritoras no olimpo da literatura.

Então, se há ainda notória luta por espaço e luta por reconhecimento, há que se adotar a alcunha de Literatura Feminina como bandeira contra esse preconceito? Ou basta disseminar o universo feminino no conteúdo literário como forma de mostrar uma nova literatura – antes escondida pela narrativa predominantemente masculina – e vencer esse preconceito? Ou mesmo basta produzir boa literatura para vencer essas barreiras num mundo, aos poucos, mais aberto a receber a mulher no ceio ainda dominado por homens?

Deixo para vocês a resposta. E também uma frase de Clarice Lispector: “Quando escrevo, não sou homem nem mulher. Sou homem e mulher”.

Acredito que música, literatura e esporte são ansiolíticos dos mais eficazes; que está na ralé, nos esquisitos e incompletos a faceta mais interessante da humanidade. [ Ver todos os artigos ]

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