Existências, as outras

Como outras existências, mas em uma vida só. Assim espero as outras que serei, às vezes. Só às vezes dou de esperar. É quando não entendo. Aí, espero, para entender ou só para aceitar, sem precisar entendimento. Aceitar faz parte deste apego à existência, deste aferrar-se. Mas mesmo obstinando-me em existir, às vezes careço de respostas. “Não há portas, e te achas dentro”, disse um poeta. Pois é, o labirinto. As pessoas que serei atravessam labirintos, sempre. E dentro do labirinto, outras pessoas que também são eu metem-me medo. Ameaçam, talvez não a mim, mas a pessoa que quero ser. A pessoa que quero ser, essa é a mais esperada, a pessoa desejada. Quando conseguirá sair do labirinto, quando conseguirá percorrer-me?

Quem é essa pessoa, quem é a esperada? Por que a espero? Ela será capaz de me apaziguar? Ou será apassivadora de mim? As perguntas ficam doendo dores de parto. Eu me contraio, o labirinto também. Ele, o labirinto, é feito de paredes que se apertam e se alargam, é feito de sístole e diástole. Pronto! O labirinto é um coração. O meu coração é um labirinto. É por ele que as pessoas trafegam, as outras que serei. Eu mesma também me penduro nele, feito pêndulo.

O Pêndulo é a espera. Esperar, esperar, às vezes a gente se angustia por não ir a lado nenhum, mesmo indo a todos os lados. Isso não trará redenções, nem epifanias. Acabará se resolvendo no humano, demasiado humano.

E humanos, somos fragmentados demais, como se algum deus um dia nos despedaçara e jogara nossos pedaços dentro de um rio. Pois a vida é a procura de juntar esses pedaços, uma procura vã, porque jamais os acharemos todos. Jamais haverá a completude tão desejada. Mesmo assim, haverá a espera. O desejo pela pessoa que virá a mim e que sou eu. Quero esperar acordada, estar de olhos bem abertos quando tiver de reconhecer-me.

É, mas pode ser que eu não me reconheça, nem sempre é fácil estar diante de si mesmo. Se eu não for a pessoa radiante, a pessoa esperada, cairei na tentação de fugir de mim? Fugirei daquilo que há tanto espero? Mas esta não era a esperada, nem a desejada. Esta sou eu, uma de mim, justamente aquela com quem eu não queria me encontrar por enquanto. “Não há portas, e te achas dentro.” De quem? De ti mesmo. É dentro de nós que nos achamos, e isso é dizer o óbvio, mas, nem sempre nos permitimos encontrar-nos. Estamos perto demais de nós mesmos, para sermos reconhecidos, perto demais para sermos alcançados.

Mas saídas, sempre as há, correntezas. Temos em nós o masculino e o feminino. O masculino é o corpo despedaçado pelo deus. O feminino é a alma que procura os fragmentos do seu corpo, ao longo do rio onde foram jogados. Ela junta quase todos os pedaços e transforma o corpo em outro que, de qualquer maneira, é ele, o antigo: um novo masculino, vindo à luz por arte feminina.

E a nós mesmos, ao que fomos, ao que somos, nos apegamos. À existência nos apegamos. Entendemos? Aceitamos.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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