F. Puss, o gato babá da família Hemingway

Reabri, hoje, o meu exemplar todo sublinhado e anotado de “Paris é uma festa”, belíssimo livro do grandalhão escritor americano Ernest Hemingway, que escreveu uma importante obra, ganhou um Nobel, viveu uma louca vida, conquistou várias mulheres e verteu todos os copos, e terminou essa historinha se matando com um certeiro tiro de fuzil.

De súbito, o livro exalou um forte cheiro de álcool.

Explico.

Não há no livro uma página sequer em que Hemingway não tenha descrito ou feito ligeiras referências acerca de encontros etílicos de diversos níveis e circunstâncias e alguns porres de dar dor de cabeça em bisão.

Paris não era somente uma festa naqueles chamados “anos loucos”. Era uma orgia alcoólica interminável.

O próprio Hemingway descreve:

“Naquela minha temporada européia, todo mundo considerava o álcool tão normal e sadio como qualquer bom alimento, além de grande fonte de alegria e bem-estar. Beber vinho, por exemplo, não era uma forma de esnobismo ou sinal de sofisticação, nem uma espécie de culto. Era tão normal como comer e, para mim, muito necessário. Jamais me ocorrera fazer uma refeição sem tomar vinho, cidra ou cerveja.”

Mas, não é só em vinho, cidra ou cerveja que “Paris é uma festa” é mergulhado a todo instante durante a releitura em que prossigo. Tem whisky  e champagne da melhor e todos os drinks clássicos, além da indefectível eau-de-vie. Tem até, eventualmente, uma boa água mineral Perrier (que devia dar dor de barriga naqueles bebedores compulsivos).

No meio dessa bebedeira toda, gente genial, como um tal de Scott Fitzgerald, uma senhorinha chamada Sylvia Beach, outra chamada Gertrude Stein, um iniciante na poesia chamado Ezra Pound….e muitos bêbados profissionais e outros eventuais. Mas, em cena a que Hemingway comparecesse não podia haver banalização da sobriedade. E olhe que ele nem conheceu o Beco da Lama…

Mas, para mim, a história mais curiosa do livro envolve dois serezinhos que não se envolviam (até então) com álcool: um bebê e um gato.

Já no capítulo final do livro, que Hemingway intitula como “Paris continua dentro de nós”, vem a inusitada notícia de que, na impossibilidade de contratar uma baby-sitter, Hemingway e sua esposa deixavam um bebê aos cuidados de………………um gato.

Caramba! Não pensem que é mentira minha, escrevendo isso para os leitores desavisados deste querido blog! O doido do Hemingway é que escreve:

“Não podíamos contratar babás naquele tempo, e Bumby ficava sozinho em seu berço de grades altas, isto é, acompanhado apenas de seu amigo, nosso grande e manso gato F. Puss. Muitas pessoas nos diziam que era perigoso deixar uma criança sozinha com um gato. As mais ignorantes e preconceituosas informavam que o gato lhe chuparia a respiração, matando-a. Outras alertavam-nos para o perigo de o gato deitar-se em cima do bebê, esmagando-o. Mas F. Puss não nos causava qualquer receio: deitava-se na caminha, ao lado de Bumby, e ficava vigiando a porta com seus grandes olhos amarelados, não deixando que ninguém se aproximasse enquanto eu e minha mulher estivéssemos fora, e Marie, a femme de ménage, fosse fazer alguma compra. Não podíamos ter uma babá, mas era absolutamente desnecessário. F. Puss exercia essa função.”

Ô Cabra doido e interessante era aquele Hemingway!!!!!!!

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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