Fabulação madura

Por Luciano Trigo
Máquina de Escrever

Em ‘Fogo morto’, José Lins do Rego se liberta da tipologia regionalista e escreve obra definitiva

Retrato de um mundo em decadência, de Fogo Morto pode-se dizer também que é o último suspiro de um movimento literário em seu ocaso, o Regionalismo. Mas é um suspiro e tanto: nesse romance José Lins do Rego alcança seu pleno amadurecimento como escritor. Na estrutura da narrativa, na segurança nos diálogos, na composição e movimentação dos personagens, no equilíbrio entre a paisagem humana e o ambiente social, o livro justifica plenamente o comentário que fez Mário de Andrade à época do lançamento: “É uma obra-prima Fogo morto, puxa!”

Publicado em 1943, Fogo morto costuma ser apresentado como o capítulo final do chamado Ciclo da Cana-de-Açúcar, registro ficcional da vida nas casas-grandes e nos engenhos da Zona da Mata nordestina. Composto pelos romances Menino de Engenho, Doidinho, Bangüê e Usina (e, de forma indireta, O Moleque Ricardo, Pureza e Riacho Doce), o ciclo tem como elementos comuns a vida no Engenho Santa Rosa e personagens que, numa espécie de comédia humana, aparecem ora como protagonistas, ora como coadjuvantes – personagens, vale observar, talhados mais pela memória que pela imaginação.

Mas, se os romances do Ciclo da Cana-de-Açúcar só podem ser plenamente apreciados no seu conjunto, por sua articulação cronológica e emocional, Fogo morto é obra autônoma, que apresenta os contornos atemporais de uma tragédia grega. Seus personagens, todos eles tristes, têm os destinos traçados pelo moderno Deus do progresso, pelo processo de transformação econômica e seu impacto social, pelo capitalismo emergente que atropela e esmaga valores e costumes, da mesma maneira que a usina engole os engenhos, indiferente às tragédias humanas que provoca. Nesse sentido, Fogo morto pode ser lido também como um documento sociológico sobre a crise da oligarquia composta pelos senhores de engenho e do modelo patriarcal a ela associado, uma e outro ameaçados pela industrialização.

O próprio José Lins considerou esgotado o Ciclo da Cana-de-Açúcar ao lançar Usina, em 1936. Ao retornar, sete anos depois, ao mundo dos engenhos decadentes, o escritor já não estava, como antes, preso às amarras sentimentais da memória. Por isso Fogo morto representa mais uma síntese/superação que uma continuidade repetitiva do tema – como compreenderam erroneamente alguns críticos da época, que condenaram o romance, “feito de restos de material”. Por outro lado, o crítico Álvaro Lins acertou ao escrever que Fogo morto “é por excelência o romance da tristeza brasileira” – coerente com a visão sociológica de Paulo Prado, segundo a qual o Brasil seria “uma terra radiosa habitada por um povo triste”.

Longe de reciclar material já esgotado, Fogo morto é o mais original de todos os romances de José Lins do Rego. O caráter autobiográfico e nostálgico dos romances precedentes é minimizado, dando lugar a uma fabulação mais madura e controlada, menos sentimental e espontânea – ainda que preservando a oralidade e o tom coloquial característicos do escritor paraibano.

A narrativa, em terceira pessoa, é carregada de angústia e sexo, de fatalismo e misticismo. Não se trata, porém, de uma voz onisciente, mas da exposição de múltiplas vozes, de diferentes pontos de vista sobre a mesma realidade. É o confronto entre essas visões que define a realidade narrada. A trama é reduzida a seus elementos essenciais, permitindo ao autor se concentrar na construção dos personagens como nunca fizera antes.

Por sua vez, os protagonistas de Fogo morto, que se entrecruzam no espaço e no tempo narrativo das três partes interligadas do livro, estão entre as maiores criações de José Lins: o mestre seleiro José Amaro, pobre e orgulhoso, revoltado e amargo; o inepto coronel Lula de Holanda, dono do decadente Engenho Santa Fé, figura morta de um passado morto; e o patético capitão Vitorino Carneiro da Cunha, vulgo Papa-Rabo, descrito pelo autor, em carta ao amigo Gilberto Freyre, como um “Quixote dos canaviais”.

As personagens femininas merecem um comentário à parte. Marta, filha de José Amaro, solteirona sofredora, e Olivia, filha caçula do capitão Tomás Cabral de Melo, enlouquecem; Neném, filha do coronel Lula de Holanda, que a impede de se casar, mergulha na melancolia. Todas esmagadas pelos pais e pela moral machista da época, contra a qual pouco podem.

No desenho dessas personagens impotentes fica clara a habilidade de José Lins do Rego em equilibrar o social e o individual. Nele as preocupações sociais que faziam parte da agenda regionalista jamais se apresentam de forma esquemática ou artificial: em Fogo morto, ao menos, a sociologia não se sobrepõe em momento algum à literatura. A descrição da paisagem decadente do açúcar e o registro das relações de poder e da luta de classes se submetem docilmente às necessidades dramáticas da narrativa. Pois José Lions entende que as raízes simbólicas do poder podem ser mais fortes que as estruturas econômicas e sociais.

Mas o verdadeiro protagonista de Fogo morto é o Engenho Santa Fé, em torno do qual se desenrolam todos os dramas da decadência. Engenho pela primeira vez descrito do ponto de vista dos oprimidos, e não mais da clase dominante a que pertence o personagem Carlos de Melo, de outros romances do Ciclo da Cana-de-Açúcar. Em Fogo morto José Lins do Rego comprova, como se necessário fosse, que não era escritor limitado à memória. É o romance no qual a ficção finalmente prevalece sobre a confissão, no qual os personagens ganham autonomia e vida própria, na qual o autor se liberta definitivamente da tipologia regionalistas para escrever uma obra definitiva, uma das mais importantes da literatura brasileira do século 20.

Comments

There are 2 comments for this article
  1. Marcos Silva
    Marcos Silva 8 de Junho de 2010 11:19

    Amigos e amigas:

    Mario de Andrade tem razão: periga ser a obra-prima de Zé Lins. Embora “Menino de engenho” tenha um significado especial na obra desse autor.
    Abraços:

  2. Tácito Costa
    Tácito Costa 8 de Junho de 2010 11:40

    Eu não tenho nenhuma dúvida em apontar Fogo Morto como a melhor obra de Zé Lins e uma das melhores da literatura brasileira. Taí um livro que me deu gosto ler.

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