Faleceu Luiz Damasceno, meu amigo. Muita tristeza

Por João da Mata

A Livraria do Luiz (*)

Era assim que era conhecida por muitos a Cooperativa Cultural da UFRN. Uma das mais importantes livrarias de Natal que no proximo ano completa 40 anos. Livraria que é o coração da UFRN e ajudou a formar muitas bibliotecas de seus alunos, funcionários e professores. Um dos vendedores dessa livraria era o meu amigo Luiz Damasceno. Muito mais de um vendedor Luiz era um agitador cultural. Falava muito e por isso angariou alguns desafetos. Sabia de muita coisa depois de mais de quarenta anos vendendo livros. Sabia de cor muitos títulos e autores. Sugeria livros e dava sugestões. Muitos de nós somos agradecidos pelas sugestões valiosas de Luiz. Leitor voraz quase sempre mostrava grifado o que estava lendo. Um dos seus livros preferidos é “Os Cus de Judas”, do Antonio Lobo Antunes

Antes da Cooperativa Cultural Luiz foi funcionário da famosa Livraria Universitária ali no centro da cidade alta. Foi nessa livraria que um dia ele foi preso durante o regime militar. Sua querida esposa foi uma militante do movimento estudantil.

Passar na livraria e não encontrar Luiz era uma tristeza. Muitos só compravam se fosse a ele. Afinal, a cooperativa era conhecida como a Livraria do Luiz. Quantas dicas literárias não recebemos do Luiz. Livros que não estava pensando em comprar: comprei. Minha biblioteca tem muitos livros comprados a Luiz. Ele conhecia todo mundo. Fez o curso de direito, mas não exerceu a profissão. Como conselheiro administrativo que fui da cooperativa – algumas vezes, queria dar uma bronca no Luiz pelo não comprimento das promessas de livros que o Luiz dizia solicitar. Tinha que dar um desconto pela sua bonita história. Ele que foi um dos maiores livreiros de Natal.

Quando pensávamos promover algum evento e precisava falar com alguém da sociedade potiguar, o Luiz era a senha e intermediário qualificado. Depois do almoço no centro de convivência o cafezinho regado com as novidades de Luiz. Para saber das ultimas novidades e fofocas. Daquele escritor que havia cometido um erro grave de português. Ou mesmo um erro conceitual. As más línguas diziam que ele foi um grande leitor de orelhas de livros. Outros diziam que o seu caixão só caberia sua língua ferina.

Natal perde um dos seus maiores livreiros. O conhaque que tanto ele gostava talvez aqueça esses momentos de solidão.

Saudades

 

(*) Parte do texto publicado no livro organizado por Marcos Silva.

Professor de Física da UFRN. Poeta. Amante da Literatura, dos Livros e das Artes. Para referenciar no caso de citação do artigo Costa, J. M. [ View all posts ]

Comentários

There are 8 comments for this article
  1. Marcos Silva 21 de Abril de 2016 7:21

    Tenho medo de dizer o óbvio, entre a tristeza pela morte do querido amigo e a felicidade por ter convivido com ele. Obrigado, Luiz.

  2. Horácio de Paiva Oliveira 21 de Abril de 2016 11:22

    Luiz Damasceno era/é uma das grandes figuras desta nossa Natal que passa (quanta nostalgia!), com o seu séquito mudo, formado por muitos daqueles que a amaram e que já não vivem mais. Afinal, são as pessoas que fazem a cidade e, quando passam, a levam também. Fiz, e dediquei ao meu amigo Luiz, esse poema que outro amigo, Marcos Silva, transpôs para o livro-homenagem que organizou:

    A ALMA DAS CIDADES

    A Luiz Damasceno

    A cidade passou
    antes de mim.
    E não houve adeus.
    Perdeu-se
    no caos incontrolável
    da impermanência.

    E quando vi que passara
    com o seu séquito mudo
    retirei-me.
    Sem olhar para trás…

    Anjos
    – que não sabem que são anjos –
    vieram ao meu encontro
    e serviram-me.

    Ainda não morri,
    concordo.
    Mas a alma de minha cidade
    não existe mais.

    (Horácio Paiva)

  3. José Saddock 21 de Abril de 2016 19:50

    Luiz foi um livreiro carteiro, estava sempre com um livro na mão e uma indicação na ponta da língua. Era um homem generoso e prestativo, conhecer dos caminhos que levavam aos livros e das necessidades de seus leitores (geralmente estudantes). Luiz Damasceno foi o Anjo da Guarda da Cooperativa Cultural da UFRN – fez história e bibliotecas, e muitos amigos. Minha inteira solidariedade aos familiares.

  4. Marcos Silva 22 de Abril de 2016 7:08

    Pena que a UFRN não atribuiu a Luiz um título de Doutor Honoris Causa. Ele merecia isso e mais.

  5. João 22 de Abril de 2016 12:09

    A língua ferina de Luiz. Logo após receber do poeta Moacy Cirne o livro “Poemas, Cajaranas E Carambolas”, Luiz comentou; Não dá um suco!

  6. João 22 de Abril de 2016 12:15

    O Bom humor de Luiz.

    Numa das conversas informais na Cooperativa Universitária, alguém comentou: – Onofre Junior não faz mal a ninguém. Ao que Luiz respondeu: – Somente à Literatura norteriograndense.

  7. Paulo Caldas Neto 20 de Junho de 2016 18:37

    Lembro-me como se fosse hoje: eu, graduando do curso de Letras, chegando à Cooperativa Cultural e encontrando Luiz, que cursou Direito com meu pai nos tempos da ditadura militar. Escrevi uma resenha do livro “Metáfrase”, do prof. e escritor Márcio de Lima Dantas, publicada na Revista Preá-Fundação José Augusto, em 2003. Luiz, quando soube que eu a havia escrito, disse-me: “Ah, foi você quem escreveu?! Puxa vida, gostei muito!” Era de fato um leitor voraz. Lia tudo. Nada escapava ao seu olhar crítico. Hoje vou à Cooperativa, e não é a mesma coisa sem Luiz. Uma pessoa que fará falta.

  8. João da Mata 21 de Junho de 2016 11:48

    Isso mesmo caro Paulo Caldas. A cooperativa que completa 40 anos no próximo ano não é a mesma sem Luiz. Faz muita falta. Abraços saudosos

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