Falsa cultura

Por Jorge Coli

A cultura melhora o ser humano? Pergunta impertinente ou simplória: quem ousaria dizer não? No entanto há zonas de sombras ambíguas nessa palavra. Um monstro recente da literatura e do cinema serve de exemplo. Thomas Harris, escritor norte-americano, criou em seus livros um personagem inteligente e culto, que era também um assassino cruel: o dr. Hannibal Lecter.

Requintado, ele preza a grande cozinha, é historiador da arte e fino crítico de música sinfônica (em um dos filmes da série [“Hannibal”], realizado em 2001 por Ridley Scott, devora o flautista desafinado de uma orquestra!).

Não é o único exemplo. Sobretudo nos Estados Unidos, cuja mentalidade pragmática desconfia das sofisticações culturais, esse tema volta com frequência na literatura, no cinema, no teatro.

Se alguém é culto, é porque há algo de errado com ele: alguma perversão sórdida, algum impulso assassino, alguma crueldade deve se aninhar, secreta, nessa alma. Cultura não cheira bem.

Outro exemplo, ilustre e europeu. Richard Wagner [1813-83] foi um gênio musical. Venerado pelos nazistas, sua “Cavalgada das Valquírias” tornou-se, graças a eles, um motivo guerreiro destinado a exaltar o ânimo ariano conquistador de povos. Os nazistas, que trucidaram milhões de judeus, de ciganos, de comunistas, de homossexuais, reverenciavam a música admirável. Eles percebiam ali uma justificação emotiva para os horrores que cometiam -e que, está claro, eles próprios não sentiam como horrores. A dimensão desumana não é eliminada pela sofisticação da sensibilidade ou do pensamento.

Machão

Por vezes, certos retratos revelam que a cultura corrompe a pureza da alma, a energia espontânea. Sintoma de deliquescência, de decadência, de enfraquecimento, ela surgiria onde há falta de energia, de vitalidade, de virilidade.

Muita gente, por sinal, teme a cultura para seus filhos homens. Menino deve jogar futebol, e não ficar lendo livro, ouvindo ópera, indo ver exposição de pintura. É mau sinal. Quantos pais aceitam tranquilamente a vontade de um garoto de estudar balé -forma cultural particularmente crivada pelos preconceitos sexuais?

Cultura, coisa de pessoas privilegiadas, traz ainda uma inevitável marca de classe. Isso se espelha na oposição, que tantos proclamam, entre “cultura das elites” e “cultura popular”, com desprezo por uma e valorização da outra.

Cultura é ainda desdenhada quando se suspeita nela o crime da erudição, mal-entendido como acúmulo estéril de conhecimento “não crítico”. No entanto, qualquer um que tenha descoberto Picasso, Beethoven ou Dostoiévski sabe que as experiências oferecidas pela cultura modificam o espírito e que o melhoram. Percebe que sensibilidade, refinamento, estudo, saber e prazer imbricam-se nela.

Ladainha

“Ciência sem consciência é apenas ruína da alma”, escrevia Rabelais no período do Renascimento. Com + ciência: algo deve acompanhar a ciência, o saber.

Fala-se em consciência “crítica” como sinônimo de exame minucioso dos saberes e dos comportamentos. Ocorre que as palavras possuem poderes traiçoeiros. Podem se tornar opacas e, ao invés de revelar problemas, crises e defeitos, confortam, oferecem segurança e certezas. Repetir o mantra “consciência crítica” não traz, por si só, a crítica da consciência.

Armas

Cultura deve ser inquieta e amiga da dúvida. Instável, complexa, móbil, oscilante, incerta: é assim que se eleva. Qualquer confiança tranquila e cômoda a desnatura.

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