A falta que o Espaço Cultural Babilônia faz

Por Tácito Costa

Na semana passada o jornalista Petit das Virgens postou no Facebook um vídeo do “Bloomsday de 1993” (aqui), realizado no Espaço Cultural Babilônia, organizado pelo fotógrafo Ayres Marques e o professor Francisco Ivan, que me provocou de imediato, saudades enormes. O espaço ficava ali no início da Vila de Ponta Negra, quase em frente ao cemitério, e pertencia a Ayres Marques e sua esposa Gigliola Capodaglio.

BABILONIA 3Hoje quando passo de carro em frente ao local bate-me uma tristeza danada. Um tempo desses quando ia com minhas filhas mostrei pra elas o local, atualmente desfigurado, e disse que ali tinha sido o Espaço Cultural Babilônia, um dos mais importantes que Natal já teve.

Guardo comigo, com o maior zelo, duas fotos minhas tiradas por Ayres, uma falando na retrospectiva cultural de 1992 e a outra numa das janelas do Espaço com Cecília, filha, em 1993. Na de 1992, Ayres escreveu: “Retrospectiva 1992. Ao grande amigo Tácito Costa”.

A minha aproximação e amizade com Ayres e Gigliola foram naturais. Eu já militava no jornalismo cultural e o projeto deles tinha tudo a ver com o que eu fazia. Além disso, eram seres humanos incríveis e eu gostava muito da companhia deles. Então, sempre que podia passava por lá, com ou sem programação cultural.BABILONIA

Ayres foi ator mirim na década de 1970, tendo trabalhado em diversos programas, como “A Grande Gincana Kibon” e “Vila Sésamo” e em novelas como “Meu pedacinho de Chão”, de Benedito Ruy Barbosa e Teixeira Filho, de 1971.

Não recordo agora se o casal me contou porque veio morar em Natal. O fato é que passou a década de 1990 na nossa cidade. Tentaram viabilizar financeiramente o espaço, não conseguiram e tiveram de partir. Moram atualmente na Itália, país de Gigliola. Naquela época ainda não havia os editais e leis de cultura, o que tornava tudo ainda mais difícil.

O vídeo sobre o Bloomsday que Petit postou levou-me ao Youtube, onde existe uma página do Babilônia com outros vídeos sobre as realizações de Ayres e Gigliola. Vendo agora, em perspectiva, é que tenho a noção exata da importância daquele trabalho. O que me leva a conclusão de que a história cultural da década de 1990 passa, obrigatoriamente, pelo Espaço Babilônia.

BABILONIA 2No abertura do vídeo sobre o Bloomsday de 1993 tem uma frase que sintetiza o que foi o espaço: “Babilônia Natal – uma performance que durou dez anos”. Eu assino embaixo. Dou fé de que assim foi.

Esse Bloomsday de 1993 foi um dos melhores que presenciei em Natal (acho que fui a todos!). O grande professor Waldson Pinheiro estava entre os palestrantes, por aí você tira o nível cultural do evento. Mas também falaram Chico Ivan, João da Rua, Falves Silva, Franklin Capistrano e trecho do “Ulisses” foi lido, simultaneamente, em português por Fátima Arruda, em Castelhano por Graça Pinto, em Francês por Florence Dravet e em Italiano por Gigliola.
Reconheci muita gente que aparece, eu dou o ar graça no minuto 13:16 (o vídeo tem 15min), camisa amarela, de barba, com uma mochila nas costas, pronto para a revolução que não veio. Foi uma década e tanto aquela de 1990.

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(Marize Castro, Afonso Martins, Haroldo de Campos, Francisco Ivan, João da Rua, Abimael Silva, em evento no Babilônia)

Eu não conhecia essa página do Babilônia no Youtube (aqui). Além do Bloomsday de 1993 tem outros vídeos, do Dia da Poesia, do projeto “Um dia – A poesia”, onde aparecem lendo poesia, entre os que partiram, Luís Carlos Guimarães, Bosco Lopes, Blackout, Carlos Humberto Dantas, e entre os que estão aí na ativa, Paulo de Tarso, Volonté, Nivaldete, João Gualberto, os meninos do Sotão 277 (Pablo Capistrano, Adriano Araújo e Wladenor Júnior), entre muitos outros.

Pelo que representam sentimentalmente para mim, abri dois vídeos de “Um dia – A poesia”, um em que Luís Carlos (aqui) aparece recitando um dos seus poemas mais conhecidos, “Canção Urbana” (“O que me chama atenção/é um homem sozinho numa mesa/nos seus cinqüenta anos bem morridos,/a entornar seu chope silenciosamente,/o homem do paletó cor de goiaba.”) e outro de Moacy Cirne (aqui), uma performance sensacional do velho poeta anarquista. Dois queridos poetas que também fazem muita falta. O poema de Luís Carlos está no livro de 1979 “Ponto de fuga”, edição da Clima e Fundação José Augusto.

Não há como esconder ou negar que o Espaço Babilônia desempenhou um importante papel cultural na cidade e que faz muita falta. Pessoalmente, agradeço aos amigos Ayres e Gigliola por tudo que me proporcionaram. Lamento, profundamente, que a cidade ingrata não tenha reconhecido isso e nem feito nada para que o Espaço não acabasse. Mas, assim é Natal, sempre afoita em consagrar nulidades e desprezar o essencial.

Comentários

Há 4 comentários para esta postagem
  1. Iaçonara Miranda de Albuquerque 30 de junho de 2015 19:38

    Eu também estava lá no dia de Haroldo de Campos, assim como meu querido amigo Zanone Tadeu Saraiva. Lá fiz meu primeiro curso de fotografia com Francisco Barca, o Chico Canhão, e Ayres, uma gentileza em pessoa. Eram férias de janeiro de 1995. além das aulas teóricas lá, fizemos uma na Ribeira velha de guerra e em Mãe Luíza. Que tardes maravilhosas! No mesmo período, fiz o Curso Básico de Italiano com a própria Gigliola, que me ajudou muito com estive em terras de Dante. Passo em frente onde era o Babilônia indo ou vindo da minha casa e sinto sempre saudades do Espaço Cultural, assim como da casa de meus queridos ex-professores, Constância Lima Duarte e Eduardo Assis Duarte, que era um pouco mais abaixo, exatamente em frente a um flat e uma lombada hoje. Na casa deles tive o prazer de ter muitas orientações como monitora, tive acesso à fantástica biblioteca (herdei alguns livros quando eles se mudaram para são Paulo por ocasião do doutorado), assim como fui convidada a integrar um grupo de estudo/conversação em francês com os donos da casa, Cosma e outras amigas. Um verdadeiro p”etit comité fantastique.

  2. thiago gonzaga 24 de junho de 2015 18:12

    Que massa !
    Eu conheço esse trabalho, como pesquisador.
    Por sinal, tenho a antologia que ele fez na época ” Um dia a poesia”.
    Muito massa, muito bacana , a ideia o projeto, tem videos muito legais no you tube de uma turma muito boa recitando poemas.
    Uma curiosidade é que na epoca do lançamento da antologia, 1996, Diva Cunha escreveu um texto, acho que foi no Diário de Natal, criticando a seleção de poemas.

    Obg por trazer esse tema a lembrança Tácito Costa, so resta a nossa geração homenagear esse pessoal, e tentar fazer na nossa epoca, algo pelo menos parecido com o que eles fizeram.
    Gostei da foto com figuras nossas, bem emblemáticas, como Joao da Rua e Abimael Silva.

  3. Lívio Oliveira 24 de junho de 2015 16:25

    Belo texto de Tácito. Belo e comovente. Comovente e nostálgico. Nostálgico e crítico, porque crítica é a existência de uma cidade que abandona as suas realizações e os seus marcos culturais. E suas pessoas, que são a razão derradeira de tudo o que se faz, de todo sonho. Como diz a canção chapliniana, “o ideal que nos acalentou renascerá em outros corações.” Ainda bem que a performance do SPlural já dura oito anos. Vai durar mais de oitenta. E estaremos juntos. De uma forma ou de outra.

  4. Anchieta Rolim 24 de junho de 2015 15:09

    Legal, Capitão. Hoje, infelizmente, as prioridades são outras…

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