Fantasiando… (ou: sobre distopias urbanas)

Foto: Canindé Soares

Por Antonino Condorelli

Após ler várias obras cyberpunk e new weird anglo-saxãs e latino-americanas, me surpreendi pensando em como retrataria uma cidade distópica de um eventual futuro próximo ou de um hipotético universo paralelo contemporâneo. Pensei, então, que seria uma metrópole (ou pretensa tal) dominada e desventrada pela cultura do automóvel: um amontoado de casas, prédio, condomínios fechados (mini-cidades auto-suficientes) e shopping centers cercados por arame, fios elétricos, paredes enormes e protegidos por seguranças privados; suas ruas seriam meras pistas de trânsito, sem calçadas nem árvores; suas praças abandonadas, jogadas às traças. Nessa cidade, concebida para os motorizados e na qual estes se deslocariam em seus veículos privados entre lugares fechados e blindados, deixando a “ralé” apeada literalmente ao relento, o transporte coletivo não seria público, mas controlado por máfias privadas, sucateado, semelhante aos navios negreiros, ineficiente e caríssimo, depredando os pobres cotidianamente. Os motorizados se comportariam em relação uns aos outros como bestas selvagens em meio a uma selva, enquanto os não-motorizados e suas vidas valeriam menos de um cocô de cachorro ou de um cuspe no chão. Coerentemente com esse cenário distópico, todos os espaços culturais públicos – por exemplo, os teatros – estariam fechados, interditados, e só funcionariam espaços privados, com excelente estrutura e reservados a uma ínfima elite, ou espaços pequenos de estrutura precária gerenciados por coletivos culturais sem fins lucrativos. Um cenário de desastre do estado, do público, do comum, da civilidade… um cenário de ficção científica. Ainda bem…

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Alex de Souza 27 de Julho de 2015 13:40

    gente, que horror! Ainda bem que isso não existe, né…

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