Faulkner cria quebra-cabeça

O TEMPO

Em “Absalão, Absalão!”, que ganha nova tradução pela Cosac Naify, leitor deve montar as peças da história

Quando “Absalão, Absalão!” inicia, toda a tragédia que se abate sobre a família do coronel Thomas Sutpen já ocorreu. O que temos neste romance de William Faulkner (1897-1962), que ganha nova tradução pela Cosac Naify mais de três décadas depois da editado pela Nova Fronteira, são relatos, tentativas de decifração, indícios, fragmentos.

Como observou o filósofo Jean-Paul Sartre acerca de “Sartoris”, romance anterior de Faulkner, não vemos os atos em si, mas os seus resultados. A diferença é que aqui o autor nomeia esses atos, nega-os e torna a chamá-los, mas com outro nome, deixando o leitor em dúvida sobre o que realmente aconteceu. Que certeza podemos ter sobre fatos narrados de modo oblíquo, por testemunhas às vezes distantes ou que os reconstituem por meio de lembranças imprecisas e suposições?

O terreno é quase sempre instável e até mesmo os termos que usamos para classificá-lo – tragédia, por exemplo – soam imprecisos. Segundo Rosa Coldfield, uma das testemunhas: Não existe a memória: o cérebro recorda exatamente o que os músculos buscam: nada mais, nada menos: e a soma resultante é geralmente incorreta e falsa, merecendo apenas ser chamada de sonho.

É com essa base frágil e falsificada que o leitor, como um detetive, deve montar as peças da história – desfiada a partir do ponto de vista de Quentin Compson, o Hamlet acadêmico, que de seus aposentos de estudante em Harvard, busca compreender a fratura social do Sul dos EUA, seu torrão natal.

Aos poucos recompomos a história da ascensão e queda do self-made man que, vindo da miséria das montanhas do Estado da Virginia, torna-se o maior plantador de algodão do condado fictício de Yoknapatawpha, o lugar recorrente na obra do autor.

A trajetória de Sutpen denuncia esse Sul marcado pela Guerra Civil e pela segregação racial – um Sul que rima com túmulos, fantasmas, máscaras, duplos, palavras recorrentes na obra.

Sartre fala de tempo decapitado, mas o romance é mais certeiro ao descrever o tempo aprisionado num recontar de molas soltas, de engrenagens enguiçadas, tendo como horizonte um futuro suicida. Ou um demente fugitivo.

ATOS SOMBRIOS

William Faulkner esmera-se na designação (ou sugestão) dos atos sombrios, de força traumática: incesto, estupro, sexualidade mal resolvida, segredos de paternidade, assassinatos, mansão incendiada – características que alguns identificam como pertencentes ao subgênero do gótico sulista.

Mas também é como se o autor, recorrendo ao apuro da técnica modernista, revisitasse esses antiquados tópicos romanescos de modo a pôr ao mesmo tempo em julgamento, pelo recurso da ironia, o próprio estatuto do romance como gênero literário.

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