Favor e Voto

Por Silviano Santiago
O Estado de São Paulo

Os estudos de Maria Isaura Pereira de Queiroz sobre o coronelismo já são clássicos. Encontram-se reunidos na coletânea O Mandonismo Local na Vida Política Brasileira (1976), livro a ser reeditado neste momento em que o retorno à regionalização do País é a novidade nas eleições de 2010.

Com formação em sociologia e especialização em antropologia, ciências políticas e letras, Maria Isaura tem obra diversificada. Nela aborda questões disciplinares pelo recurso à metodologia transdisciplinar. Aí está o seu pulo do gato. Ao apreender a trajetória do mandonismo local na vida política brasileira, Maria Isaura privilegia a figura do coronel e o gestual do favor. A persistência da figura humana e do seu gestual exigiu que navegasse aquém e além da Primeira República. Para substantivar o longo percurso histórico do coronelismo, ela traz à baila um clássico da antropologia, o Ensaio sobre o Dom (Forma e Razão da Troca nas Sociedades Arcaicas), publicado por Marcel Mauss na revista Année Sociologique, em 1923 e 1924.

Em análise das sociedades do Oceano Pacífico e das tribos do Nordeste norte-americano, Mauss mostra como a vida material e moral daqueles povos está embebida no exercício da dádiva, que acaba por formatar um abrangente sistema ritualista de dom e de contradom. A rivalidade entre os atores sociais ativa o dom, que denota a superioridade de um sobre o outro. Esta é logo torpedeada pelo contradom, que restabelece e fortalece o indispensável regime de igualdade, e assim ad infinitum. Essa é, por exemplo, a regra da troca de dons que se realiza durante a cerimônia do Kula, nas Ilhas Trobriand. Entre os índios norte-americanos, o sistema de trocas torna-se paroxístico. O potlach leva os chefes indígenas a se integrarem por gastos cada vez mais pródigos. Transformam-se em esbanjadores das próprias possessões.

Nos dois casos, dom e contradom se alicerçam num setor do caráter do doador que é (aos olhos dos brasileiros) solidária e cristã. A relação afetiva aponta para a igualdade entre as partes envolvidas pelo e no sistema e pode ser recoberta por análise ética utilitarista. Trabalho para Maria Isaura.

Através das noções de Marcel Mauss, a cientista política atualiza o gestual do favor, a unir coronel e apaniguados, e o sistema de trocas por ele implicado no momento em que as urnas decidem a governabilidade do município, do Estado e da Nação. Sem anular a bibliografia clássica sobre o favor, ela abstrai a noção das análises da emergente sociedade urbana, onde a literatura oitocentista de Machado de Assis é carro-chefe. Retira-a, também, das relações de compadrio, em que é a alavanca que subsume na parentela latifundiária a família nuclear campesina e reorganiza a comunidade sob a forma de “sagrada família”, para retomar a expressão de Antonio Augusto Arantes.

No processo das eleições, o dom e o contradom são atualizados pelos primeiros republicanos e seus constituintes, daí sua importância imediata. Na sociedade pós-escravocrata, europeizada, católica e urbana, que se monta ao fim do século 19 como republicana, Maria Isaura foca o favor como o instrumento que relembra a antiga instituição do mandonismo local, que sublima as rivalidades e diferenças comunitárias. Hoje, sob o impacto do Estado de bem-estar social, o favor persiste simbolicamente nas urnas. O voto exprime um sentimento indiferenciado de liberdade e de igualdade que, sem chegar a se dar como cidadão, une o que a condição humana separa.

A transdisciplinaridade permite uma lapidação do objeto bruto, o favor, que o liberou do maniqueísmo disciplinar ideológico. Parafraseando Goethe, é nosso destino ver o objeto iluminado, e não a luz. O objeto em estudo se apresenta faiscante aos olhos que o focam nas facetas quebradas e nas dobras contraditórias, oferecidas pela lapidação.

Ao subscrever a leitura do dom proposta por Mauss, Maria Isaura isenta o eleitor interiorano da falta de discernimento. Escreve ela: “O voto não é inconsciente, muito pelo contrário resulta do raciocínio do eleitor, e de uma lógica inerente à sociedade a que pertence.” Essa lógica gera um “sentimento de igualdade”, continua ela, que permite ao voto transformar-se em “bem de troca”. Explicita Maria Isaura: “O voto é, pois, consciente, mas orientado de maneira diversa do voto de um cidadão de sociedade diferenciada e complexa. No primeiro caso, o voto é um bem de troca; no segundo caso, o voto é a afirmação pessoal de uma opinião.”

Por terem sido edificadas no terreno da solidariedade cristã, liberdade e igualdade são forças políticas desativadas pela razão disciplinar, embora continue sendo moeda que mobiliza os eleitores em favor do seu próprio bem-estar. Por isso, são forças políticas no comício em praça pública, onde predomina a retórica personalista e sentimental do líder esbanjador, para lembrar o potlach estudado por Mauss.

Como o comício é hoje realizado em local onde se inaugura a moderna e exuberante dádiva do Estado ao cidadão, o esbanjador faz apelo ao ritual de dom e de contradom. Para melhor se discutir a retórica eleitoreira, atualizem-se as metáforas do filme Terra em Transe, de Glauber Rocha. Ao som do Luar do Sertão, tornado hino regional, a usina hidrelétrica faz o meio ambiente dançar.

Aguardemos o momento em que o debate entre candidatos com plataformas políticas distintas, a ser coberto e transmitido pela mídia nacional, sirva para que se busque o voto que, por ser fruto de afirmação duma opinião em sociedade diferenciada e complexa, distinga nas urnas um eleitor do outro, ou os reaproxime.

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