Fazendo uma média (Irã, Israel)

Parto do princípio de que não existem nações bandidas. Pode haver estados nacionais praticando políticas equivocadas, implantadas por determinados grupos que estão momentaneamente (porque, em história, tudo é momentâneo) no poder ali.

Diante disso, penso em coisas erradas e potencialidades importantes que Irã e Israel abrigam.

1) A ditadura de Reza Pahlevi (derrubada sob a liderança de Khomeini) era medonha. Seu projeto de ocidentalizar o Irã englobava desprezo por aspectos culturais do país. Nesse aspecto, os aiatolás tiveram punhados de razão e Foucault não delirou quando comentou atentamente o processo.

2) Os estados organizados em nome de qualquer Deus são outra barra pesada. Uma coisa é garantir a liberdade religiosa, contra argumentos de modernização ou tradicionalismo. Outra coisa é submeter a população aos ditames de uma religião (qualquer religião). A Revolução Francesa (separação entre Estado e Igreja, que, por vias meio tortas, vinha desde a Reforma, em relação ao Vaticano) é mundial e sem retorno.

3) A criação do Estado de Israel foi conquista importante e irreversível de um povo milenarmente oprimido e que sofreu no século XX a experiência limítrofe do holocausto nazista – também aplicado a outros povos e grupos. Isso não significa carta-branca em relação a minorias que habitam seu território nacional.

4) A relação do recém-criado Estado de Israel com a população da área onde se estabeleceu é medonha e configura crescentemente novo holocausto, como denunciado (sem o emprego desse termo) pelo historiador Isaac Deutscher no brilhante ensaio “O judeu não-judeu” (Isaac Deutscher (O Judeu Não-Judeu e Outros Ensaios, Civilização Brasileira, 1970)

4) O planeta é um só. Sem garantir sua sobrevivência, não sobra pra ninguém.

5) Estive em Israel para um congresso. Não conheço o Irã mas visitei Egito, Líbano e Turquia, países com expressivas populações islâmicas. Lamento informar que falafel e comida árabe são quase a mesma coisa, tem dança de rua que palestinos e judeus podem praticar em conjunto porque os passos são quase iguais. E existem sarcófagos judaicos em museus israelenses perturbadoramente semelhantes aos egípcios – menos suntuosos apenas. Os setores de Línguas Árabe e Judaica da FFLCH/USP montaram uma pós-graduação conjunta. Passo humilde mas necessário.

6) A paz é difícil mas sem ela não existiremos. Literalmente.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

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  1. Escobar Franelas 17 de abril de 2012 22:32

    Sei que parece pequeno e até redundante apenas concordar, mas… concordo. Sem delongas desnecessárias, sem tergiversações, sem redemoinhos: concordo!

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