Feito pra acabar

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

Não quero ser obrigado a sentir o tempo como um inimigo ao qual eu entrego o presente

A partir de agosto já começam os primeiros sinais da ladainha, que vira coro em outubro e novembro e frenesi em dezembro: “O tempo está passando rápido demais”, “o fim do ano está aí”, “2011 já era”. Costumo reagir com irritação e incômodo a esse tipo de antecipação. Acho não só que o ano foi longuíssimo como gosto de sentir que para a meia-noite de hoje (qualquer hoje) ainda falta uma eternidade. Outro dia, quando ouvi pela enésima vez a mesma cantilena, convidei uma pessoa enérgica, hiperativa e ansiosa a fazer um minuto de silêncio. Foi quase um suplício e um assombro atravessar aquele momento vazio e infindável, quando ela se permitiu experimentar uma simples fração de duração sem fazer e sem falar nada. Pois então era o tempo, virado do avesso, que não acabava nunca, para nosso espanto e para a minha etérea vingança.

Não quero ser obrigado a sentir o tempo como um inimigo ao qual eu entrego de graça o presente, só para poder virar logo a página do calendário e esquecer (por pouco tempo) que ele é devorador. Quero que ele dure, para trazer e para levar, para fazer e para acontecer, para desfazer e para refazer, para virar ou para ir simplesmente sendo e estando no curso móvel das coisas. Insisto que me recuso a apressar imaginariamente o final do ano para extrair disso um precário conforto em forma de lamento, o de que a minha consciência não se deixa enganar pelas aparências. E que sabe que, não bastasse a tradicional fugacidade de tudo e a efemeridade da existência, o tempo agora deu para trapacear, insaciável, e anda roubando no varejo daquele mesmo jogo em que a v a n t a g e m n o atacado sempre foi dele.

É evidente que o sentimento da aceleração generalizada é um sintoma do estado real do mundo. A sensação do tempo está intimamente ligada ao sistema das prioridades dadas às coisas, e estamos engatados e engatilhados todos numa rede cuja prioridade é o giro rápido da produção tecnologicamente turbinada. Mas dar o ano como previamente consumado é uma maneira fatalista de redobrar esse fato e de naturalizar a velocidade exterior das mercadorias, introjetando-a como uma cansada metafísica. A gente tem que se reservar a capacidade de desativar essa armadilha interna e de se dar o presente como presente.

As artes, em especial as do tempo, como a poesia e a música, sempre foram um instrumento para isso. A música talvez não seja mais do que a possibilidade de experimentar sem pânico, no seu mais fundo ou no seu mais superficial, o tempo que nos consome (bebo essa definição no blog de Paulo Neves, que já citei aqui).

Me permito usar agora alguns conceitos de sabedoria astrológica (Walter Benjamin via neles uma antropologia fecunda, capaz de lançar luzes inéditas sobre o contemporâneo). Puxar esse assunto a essa altura, além de uma temeridade e um pequeno delírio, é uma prova de que para mim o ano ainda não acabou. Mas fica a sensação de tanto por dizer, no final de cada coluna. É que o mundo em que vivemos é de uma mercurialidade intensiva. Próximo do sol, Mercúrio é um astro que desenha ziguezagues rápidos no céu, sendo associado tradicionalmente, por analogia, ao deus das intermediações, a todo tipo de intercâmbios, ao comércio, às trocas e às operações, no limite herméticas, da linguagem. O mundo que globalizou os mercados e pôs as linguagens em rede é um mundo mercurial elevado ao cúmulo.

O mundo de Mercúrio é o mundo da mídia, mas com um detalhe relevante. “Mídia” é a pronúncia inglesa do plural neutro latino “media ” , significando os “meios”, elementos que, estando em posição intermediária, isto é, no meio, são capazes de colocar em contato e em comunicação coisas que estão distantes. As linguagens e seus suportes são portanto mediadores, capazes de fazer mediações. “Imediato”, ao contrário, é o contato direto, que se faz sem mediações. A mídia contemporanea é instantânea e paradoxalmente imediatista: os meios querem abolir as mediações, como se fizessem um contato imediato de não sei que grau com a realidade que se torna ela mesma midiática.

No lado oposto está Saturno, o mais lento dos planetas visíveis, associado ao chumbo, aos obstáculos, aos limites e às demoradas elaborações que são estruturantes, mas demandam tempo. Se a mídia é mercurial, a universidade é originalmente saturnina, e desde há muito os seus tempos se descolaram, sobretudo no Brasil, entre a imediatez de uma, queimando as mediações, e as lentas mediações da outra, girando muitas vezes em falso numa frequência inaudível.

Esse espaço que se abriu aqui foi e tem sido um convite ao equilibrismo entre a agilidade do jornal e os torneios do pensamento universitário, nem sempre bem resolvido. Talvez nunca resolvido, pelo que sempre resta do essencial que não foi dito.

Mas continuo com toda a vontade de continuar, depois das férias de janeiro.

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“A gente é feito pra acabar / a gente é feito pra dizer / que sim / a gente é feito pra caber no mar / e isso nunca vai ter fim.”

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