Feiura e destruição

Por Michel Laub
FOLHA DE SÃO PAULO

Se há acusação que não pode ser feita ao historiador americano Benjamin Moser, biógrafo de Clarice Lispector e autor do recém lançado e-book “Cemitério da Esperança” (Cesárea, tradução de Eduardo Heck de Sá), é a de ser um escritor morno.

Para ele, Brasília é um “asilo gigante” cheio de “inovações banais e contraproducentes”. Seu setor hoteleiro lembra um “centro corporativo barato no subúrbio de Dallas”. As criações de Oscar Niemeyer, que “nunca conseguiu dizer não a um tirano”, parecem “algo que Kim Il Sung teria patrocinado após um namorico com a cientologia.”

“Cemitério da Esperança” trata da capital do país, em especial, mas também de lugares como Rio de Janeiro, Paris, Ouro Preto e Olinda. A renda do livro será doada para o movimento Ocupe Estelita, que se opõe à construção de 12 torres de luxo na região do cais do Recife. Moser retoma uma crítica, frequente no meio arquitetônico, a obras cuja “escala esmagadora” é planejada para “dominar completamente o indivíduo”.

Dando um desconto para a paixão do diagnóstico, entendo a associação entre a herança dos projetos grandiosos, que competem com a natureza em versões ordenadas ou caóticas, e algum simbolismo sombrio. No romance “A Informação” (Companhia das Letras, 492 págs.), Martin Amis definiu Nova York como “a coisa mais brutal feita pelo homem sobre um pedaço de terra”, superando Hiroshima “no ponto zero, no dia da bomba”.

Já Nuno Ramos, num artigo célebre na Folha, diz suspeitar que há um vínculo entre “violência e burrice urbana”, visível nas “ruínas orgulhosas” que convivem com “despautérios azulejados de 30 andares” nas nossas cidades “apodrecendo sob o sol”.

Arquitetura é matéria e vazio, história e esquecimento. Cada obra monumental ou ínfima corresponde a algo que deixou de existir, ou que poderia ter sido feito e não foi. O tempo tem sido cruel com as escolhas que São Paulo faz pelo menos desde os anos 1920, com seus rios aterrados, seu modelo de transporte baseado em avenidas, seus tributos ao elo conceitual entre concreto/aridez e progresso/bem-estar –Minhocão, Memorial da América Latina, o Largo da Batata no estado em que se encontra hoje.

Numa cidade que precisa justamente do contrário, ou seja, menos impermeabilização que impeça o solo de absorver a chuva, mais áreas verdes que diminuam o inferno das temperaturas atuais, espaços menos hostis ao convívio comunitário, uma estética de mais harmonia com a paisagem natural e humana se impõe cada vez mais como forma de inteligência. O que é aceito na teoria, mas quase nunca na prática.

Arquitetura também é uma ideia de futuro, o reflexo do imaginário e das aspirações do povo que a produz. Isso não está apenas em obras públicas, nem é privilégio de uma classe. São Paulo tem o desenvolvimentismo em seu DNA, o que se traduz tanto na estátua do Borba Gato quanto em bairros que mudam de perfil sem planejamento. A violência citada por Nuno Ramos, que é um vazio de beleza, que é um tipo de estupidez, é uniforme em bairros pobres e ricos da cidade.

Nas periferias, além de crime, transporte precário e escolas e hospitais ruins, a falta de Estado se reflete no aglomerado cinzento onde não se vê uma quadra esportiva, onde não há o respiro de uma biblioteca. Em Pinheiros e Vila Madalena, nas leis frouxas que permitem edifícios novos e horrendos, que liquidam o comércio miúdo para aumentar a área privada, sem falar nas garagens com vagas múltiplas que entopem de carros ruas já estreitas.

Se o apego ao Belo pode ser uma forma de barbárie, como provaram os nazistas e sua “arquitetura da destruição” (título de um documentário clássico sobre o tema, dirigido por Peter Cohen), a feiura urbana sempre traz algo de excludente. Na versão sem metáforas, que começa e termina na falta de recursos materiais, ou em suntuosidades como os espigões do Recife.

De novo nas palavras de Moser, desta vez numa entrevista a “O Globo”, projetos assim “tentam ser símbolos de riqueza, mas são monumentos à pobreza, ao mau gosto”. Vê-los sair do chão, escondendo a diversidade social e cultural do entorno, numa utopia de modernidade e grandeza que já nasce velha e pequena, é contemplar “um país que se odeia”

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