Feliz Ano Novo

Por Demétrio Diniz

Eles comem em silêncio, um de frente para o outro. Estão velhos e devem ter gasto as palavras que tiveram de gastar na vida. As do tempo de criança, as da rotina, e as que usaram nos raros momentos de amor. Também as do gozo, monossilábicas, carregadas de veludo.

O homem, que parece um alemão, tem os olhos hirtos. Somente a boca e as mãos se movem. Possui hábitos antigos: pega o saleiro, recolhe o sal na palma da mão, e o espalha no prato, igual a se atirasse sementes numa horta. Faz o mesmo com a pimenta-do-reino. A mulher acompanha sem olhar, como uma sombra, os gestos remotos, e come cabisbaixa.

Parecem dois velhos de férias. É meia-noite em Paris. Do lado de fora, na Champs-Élysées, os jovens gritam, fazem arruaças. Alguns casais não perdem a hora e se abraçam, se beijam, desejam feliz ano novo. Uma ou outra garrafa de champanhe espocam. E um avião de carreira ocupa o espaço de um céu sem estrelas.

Os dois continuam comendo em silêncio e não se importam com a euforia que vem da rua ou das mesas ao redor. Todo o movimento dos olhos se restringe ao prato. Vêem distantes o piscar das luzes na avenida, anunciando o ano que começa. Apenas os cílios batem uma vez e as pupilas se dilatam um pouco, quando uma mulher entra pela porta gelada, anunciando: ¨Mataram um africano na rua”.

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