Feliz ano que vem

Por Everton Dantas
NO NOVO JORNAL

Queira uma cidade limpa. Uma cidade que
não minta ou invente desculpas por não ter
dinheiro para pagar a coleta de lixo sobre a qual
emite cobranças todo mês. Uma cidade cuja
população produza menos lixo e seja digna o
sufi ciente de ter um prefeito que mereça, sem
que isso soe como uma maldição. Um lugar que
cobre pelos serviços oferecidos sem que isso
pareça um golpe. E que deixe claro a qualquer
um como esse dinheiro recolhido e´utilizado.

Queira uma cidade que dê menos valor aos
fogos, à pirotecnia, essa coisa inventada pelos
chineses há milhares de anos; e que – ao invés
de trazer bons augúrios – só faz espantar as
invasões de seres espaciais que há anos tentam
tomar a terra, mas são afastados pela barulheira
e a sujeira provocada a cada reveillon.

Queira uma cidade que saiba dar mais valor
ao silêncio. Um espaço de convivência que
valorize mais o mar, a areia, o sol, os mangues e
o verde em geral. Não este verde de embalagem,
como aquelas que envolvem esses pernis de
porco vendidos nos supermercados, acerca dos
quais temos tanta certeza de sua origem quanto
temos das intenções políticas num ano eleitoral.
Os porcos podem ser mais reais, mais sinceros e
dão menos indigestão.

Queira um lugar que aposte menos em
iluminação artifi cial e dê mais valor às suas
crianças. Um município que não possua, como
personagem principal de suas madrugadas,
garotos e garotas perdidas, olhando para um
local que a cidade ainda vai chegar caso continue
a agir assim, ignorando uma realidade que
persiste em crescer, uma doença. Cada criança
dessas, perdida, apaga qualquer beleza que
todas as luzes do mundo poderiam conferir a
uma noite de Natal.

Queira um município onde bebês menores
de dois anos não morram porque seus pais não
tiveram dinheiro para pagar o plano de saúde.
Ou porque a estrutura de saúde não tem leitos
de UTI infantil disponíveis para receber seus
doentes. Uma cidade cuja estrutura básica
de saúde seja sufi ciente para atender sua
população. E que seja assim para todas as áreas,
como segurança, educação e transporte.

Deseje um local que seja governado por
alguém que não lhe passe a impressão de que
você está vivendo a história de João ou Maria,
onde as casas e prédios são feitas de doces e
chocolates; e tudo mais pode ser devorado. Local
onde, na verdade, tudo não passa de um truque
de uma bruxa má, que nos enfeitiçou, e nos
engordará para poder nos devorar, contrariando o
fi nal feliz do conto infantil.

Planeje um espaço que não tenha dezenas
de fi lhos de Jader Barbalho, todos crescidos,
de ambos os sexos, que o tempo inteiro se
revezam no esporte de zombar da coisa pública,
da honestidade e da transparência. Queira uma
cidade que tenha algum projeto de longo prazo
de desenvolvimento, que vá se espraiando pelo
litoral, pisando macio para não danifi car suas
belezas naturais, sem perder a oportunidade de
usar com inteligência os espaços disponíveis.
Algo moderno e simples, mais preocupado em
melhorar a vida das pessoas aos poucos; e
menos atento a mudar a história do mundo.

Queira um lugar onde todo mundo saiba
dar bom dia e dizer “obrigado” mesmo quando
for o caso de dizer “de nada”. Uma cidade
mais honesta consigo. Queira uma cidade
que se preocupe mais com coisas realmente
importantes e não com a fofoca rasteira que
tanto interessa a todos os da terra, inclusive aos
que se dizem intelectuais. Que o digam os chatos
que não entraram para a lista.

Uma cidade que não seja motivo de chacota,
que mate de fome os articulistas e colunistas
que só escrevem textos explorando os pontos
negativos que a urbe possui (sem culpa), por
conta de algumas pessoas que a habitam. Um
lugar que faça os jornalistas pensarem além
do por do sol para poder preencher o espaço
destinado às suas ideias. Uma cidade sobre
a qual escrevam textos elogiosos nos quais
fi gurem como piadas as outras cidades de outros
estados, os nossos vizinhos. Uma cidade que
cause inveja. Que tenha a grama mais verde e
isso seja reconhecido por seus moradores. E
que seja citada lá fora como exemplo positivo
de alguma coisa. Uma cidade cujos jornais não
tenham como evitar as boas notícias. Local que
não se renda a um projeto faraônico que mexerá
com todo seu espaço urbano por algo que não
fi cará. Por algo que se tornará um estorvo, um
símbolo à falta de criatividade governamental.

Deseje uma cidade na qual realmente se
perceba quando o ano termina. Um espaço cujos
problemas não vazem de um ano para o outro
como se fossem famílias de carapatos, tendo
fi lhos e se perpetuando; tomando conta de todo
o ambiente. Queira uma cidade cuja população
saiba votar. Queira isso, principalmente este ano.
Para que possamos chegar ao fi nal de 2012
e podermos realmente comemorar o ano que
passou. E acreditar que 2013 será realmente
melhor. Feliz ano que vem.

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