Feliz Nei

Amigos e amigas:

Li hoje, com atraso, uma entrevista de Nei Leandro de Castro ao Jornal Zona Sul, reproduzida no blog “Sebo vermelho” (10 de fevereiro). Fiquei muito impressionado com uma fala do entrevistado:

“Se uma revolução esquerdista tivesse acontecido no Brasil, teria sido um desastre. O comunismo foi um dos maiores blefes de toda a história da humanidade. Durou apenas setenta e poucos anos na União Soviética e todos viram o que foi feito: mortandade. O Estado matou 30 milhões de pessoas. Mais do que Hitler. Era aquela vida sob o jugo, sob as botas do comunismo o que a gente queria? Tantos foram torturados e até mortos em busca de um ideal desses? Faço essa autocrítica: rezei mesmo pela cartilha do Partido Comunista, mas se tivesse triunfado uma revolução socialista, teria sido um grande desastre.”

Nei profetiza: uma revolução de esquerda teria sido um grande desastre. Nei silencia: o que foi mesmo que aconteceu, sem revolução de esquerda entre nós?

Nei denuncia, com razão, os crimes daquilo que se disse Socialismo (mais propriamente: Stalinismo mesmo).

Lembrei de dois pensadores alemães: Walter Benjamin (marxista muito heterodoxo, adorava Arte Moderna e Misticismo Judaico) e Hannah Arendt (nunca foi marxista, denunciou duramente os crimes do Stalinismo mas tratava o pensamento de Marx com respeito).

Benjamin escreveu, dentre outras obras-primas, um ensaio de grande beleza, “Sobre o conceito de História”, traduzido entre nós por Sérgio Paulo Rouanet. Benjamin fala sobre a memória dominante como memória dos dominantes (por exemplo: o Socialismo seria um desastre, pensamento de quem não é socialista e não se julga um desastre, mesmo que o seja) e enfatiza a importância de se rememorar projetos derrotados na História (por exemplo: o Socialismo não tinha que ser Stalinismo, houve Anarquismo, Marx já tinha morrido quando a URSS surgiu, existiram comunistas de Conselho e outras correntes libertárias que foram derrotadas pelo Stalinismo, a Revolução Espanhola foi uma grande disputa entre grupos diferentes de esquerda contra uma grande harmonia entre grupos diferentes de direita). Ao invés de profetizar (o Socialismo terá que ser maravilhoso ou desastroso), Benjamin preferiu lembrar que a História depende do que os interessados fizerem dela (o Socialismo poderá ser legal, embora a experiência histórica seja um espetáculo de ruínas apavorantes).

Arendt criticou duramente o Stalinismo, defendeu inclusive a existência de classes sociais como um dos muitos níveis de organização da sociedade civil contra o poder central (estado, partido). Mas criticou duramente também ilusões do mundo não-socialista, mostrou os riscos que o conformismo, no Capitalismo, abriga – Eichmann dizia que fez o que fez obedecendo ordens, argumento muito comum entre outros criminosos nazistas. E a mesma Arendt lembrou que o grande poeta Bertolt Brecht, no segundo pós-guerra, instalado na ex-Alemanha Oriental (dita comunista), não mais conseguiu escrever Poesia: parafraseando Cazuza, enquanto houver Ideologia (dita burguesa ou dita comunista), não pode haver Poesia. Fora da crítica, que consegue ir além de direita e esquerda, não há solução para o pensamento nem para a sensibilidade.

Silenciando sobre o que houve no Brasil desde 1964 (uma medonha ditadura de direita e uma redemocratização pífia), Nei se revela um brasileiro feliz: não nos tornamos comunistas, não há botas nem jugo – ao menos aquelas botas e aquele jugo. Tornamo-nos o quê? E o que há?

“Tristeza não tem fim, / Felicidade sim” (Tom Jobim e Vinicius de Morais, “A felicidade”).
Feliz Brasil e Feliz Mundo, Nei!

Abraços a todos e todas:

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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