Fernando Meirelles e Glauber Rocha

Amigos:

Li rapidamente a entrevista de um dos filhos de Glauber, também cineasta. Nela, o jovem menciona os preconceitos contemporâneos em relação ao diretor de “Terra em transe” e até mencionou uma fala de Fernando Meirelles, para quem o filme “Tropa de elite” seria superior a toda a obra de Glauber.
Não quero cometer injustiças com ninguém, inclusive porque não li diretamente a fala de Meirelles. Comentarei essa fala como exercício ficcional (emitida por um personagem de Jorge Luís Borges, digamos).

Sou historiador. Considero possível falar de “A Idade da Terra”, “Cidade de Deus” ou “Tropa de elite” apenas numa perspectiva de historicidade, em diálogo com os respectivos projetos estéticos (e políticos e filosóficos etc).
São tempos muito diferentes os desses três filmes. Balanços e perspectivas de mundo muito diferentes. Glauber falava num universo de pensamento onde a revolução fora julgada possível e depois… indagada dolorosamente.

Meirelles e José Padiha fazem seus filmes num contexto que valoriza eficácia de mercado e competência técnica – fora do sucesso individual, não há perspectiva.

Prefiro evitar uma leitura ideológica que apenas adere a um projeto e despreza os demais. Gosto muito dos filmes de Rocha pelo esforço bem sucedido de problematizar padrões. Identifico nos filmes de Meirelles e Padilha facetas de talento e esboços de poéticas – a meu ver, ainda incompletas, apesar de algumas conquistas, como a cena da gota de orvalho no filme “Cidade de Deus” e a boa direção de atores em “Tropa de elite”.
Proponho desideologizar o debate: Glauber Rocha foi longe e muita gente de alto conhecimento cinematográfico identificou esse trajeto (Antonioni e Scorcese, para citar apenas dois entre os maiores). Meirelles e Padilha poderão crescer ainda mais, de preferência sem desprezarem quem filmou ou filma de formas diferentes das deles – desprezo gera desprezo. Não sei qual a razão para o cinema brasileiro ter de se reduzir a um padrão.

Abraços:

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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