[ENTREVISTA] Fernando Monteiro e a falta de memória em um país de cinzas

Em um momento de distâncias, desgovernos e incertezas, quando todo mundo parece voltar para si e para o agora,  Fernando Monteiro (1949), poeta pernambucano, empreende uma jornada lírica aos porões da história do Brasil, onde residem vítimas sobre as quais se ergue, vendada, uma república federativa.

É nesse contexto que nasce o longo poema Os vivos (?) e os mortos,  uma denúncia poética, um convite à reflexão, diante das atrocidades do agora, se estamos realmente vivos.

O livro a ser publicado pela Sol Negro Edições, editora independente de Natal, está na última semana da campanha no Catarse para financiamento coletivo.

Sobre a experiência de leitura d’OS VIVOS (?) E OS MORTOS, Sérgio de Castro Pinto em texto de apresentação do livro, diz: “o narrador se situa no olho do furacão, no epicentro dos episódios, cobrindo-os sem as ‘muletas’ das metáforas ou do lirismo bem-comportado”.

1- Fernando, como “Os Vivos (?) e os Mortos” dialoga com seus livros de poesia anteriores?

Fernando Monteiro: Esse livro dialoga de várias maneiras com os demais poemas longos (aliás, eu lamento que a tradição dos poemas narrativos, de menor ou maior extensão, seja tão curta aqui no Brasil). Mas, ao mesmo tempo, o arco meditativo desta vez foi tomado também pela urgência, pois se tratava da contraposição de tempos, ou melhor, de evocar o passado (recente) para denunciar o presente “letárgico” que nós estamos vivendo. Ou seja, o poema vai em busca daquilo que se passou, trágica e horrivelmente, entre as paredes da chamada Casa da Morte, em Petrópolis (para onde eram levados os jovens da luta armada contra a ditadura militar, dentre os quais somente uma pessoa escapou viva para contar a [horrenda] história)… Na outra ponta do texto, essas moças e rapazes torturados e mortos pela brutal repressão militar lançam sua sombra sobre a geração quase apática que hoje está usando as redes sociais para o tipo de protesto meio “solipsista” a que muitos se confinaram de alguma maneira, cada um na sua bolha. Então, nesse poema o leitor tem o desdobramento de uma tensão que é o meu foco, mais uma vez, como nos poemas longos anteriores.

2- Como você descobriu a casa da morte e o que motivou a escrever este livro?

Fernando Monteiro:  A moça que escapou da morte — inevitável nessa pequena (?) “Auschwitz” serrana do Rio de Janeiro — teve a “sorte” de ser dada como morta por seus algozes, e, chegados os anos da abertura política, foi ela quem denunciou a existência do sinistro endereço que visitei uma vez, movido pela notícia do horror que ali se perpetrara. Claro, só a vi por fora, bisbilhotando, por dizer assim, não muito mais do que o jardim da frente, certamente de velhas areias encharcadas do sangue de uma geração que sonhava com outro Brasil: aquele do Santo Guerreiro contra o Dragão da Maldade — para lembrar o título do filme de Glauber Rocha —, neste momento em que “dragões” da Maldade governam(?) uma espécie de país catatônico ao ser entregue a militares nomeados por um franco genocida.

3- Como foi para você o processo de escrita do grande e denso poema?

Fernando Monteiro: Foi doloroso, acredite, justamente na atmosfera catastrófica do começo da pandemia (que prossegue), como talvez só assim pudesse ser. Com isso eu quero dizer que, num ambiente como o de 2020, o tema se imporia mais naturalmente, via esse “senso trágico” possível de levar de volta para aquela casa, desta vez para, imaginariamente, encarar todo o seu horror, todas as torturas e os assassinatos cometidos por trás daquelas paredes de chalé aparentemente pacífico, etc. Enfim, terminei chegando ao fim do poema, como se diz, com a “morte na alma”…

Ilustração: Chico Díaz

4- Fale-me sobre a parceria com Chico Díaz para as ilustrações do livro.

Fernando Monteiro: Convidei o talentoso Chico Díaz (mais conhecido como ator e diretor de teatro), pela força que emana das suas obras de artista visual dotado de uma visão política mais do que necessária para poder expressar indignação, compaixão e admiração, em doses equilibradas. E isso fica bem claro nas imagens que ele criou para Os Vivos (?) e Os Mortos, as quais vieram a ser editadas, em remate, pela apurada experiência do amigo Márcio Simões. O que torna esse nosso novo livro uma obra realizada praticamente a seis mãos, no final de contas.

5- O que lhe motiva a escrever em tempos como este?

Fernando Monteiro: Se me permite, talvez eu deva responder à essa pergunta com um trecho do prefácio do livro, escrito pelo grande poeta Sérgio de Castro Pinto, o que muito me honra: “O novo poema de Fernando Monteiro saiu vivo, pois a literatura, quando bem realizada, torna-se portadora de uma saúde de ferro, inabalável, mesmo quando narra as atrocidades de Auschwitz, da Casa da Morte ou do desgoverno Bolsonaro. Isso sem contar que, além do criador e da criatura, Fernando Monteiro, o cidadão, também poreja saúde, vigor, justamente por não se enquadrar naquilo que Dante preconizou para os isentões: ‘No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempo de crise’”.

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