Fernando partido ao meio

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

O escritor Fernando Monteiro me envia, do Recife, duas frases que lhe martelam a cabeça. A primeira é de Friedrich Nietzsche: “Nada acontece na vida de um homem que não se pareça com ele”. A segunda, que Fernando encontrou escrita em um muro de Ronda, Espanha, aparentemente desmente a primeira: “O que quer que faça, você se arrependerá”.

Ocorre-me que as duas frases sintetizam, de modo muito forte, o paradoxo que está no centro da atividade do escritor. O grande desafio da escrita não é “escrever bem”, agradar a crítica, vender muito ou receber prêmios _ como muitos escritores se iludem hoje em dia. A verdadeira provocação é chegar a um texto que se pareça com quem escreve. Que traga a sua marca. Só acontecem na vida de um homem coisas que se parecem com ele. As que não se parecem com ele não acontecem, ficam de lado, são esquecidas, não lhe dizem respeito. A luta do escritor, então, indiferente aos apelos sedutores do mundo externo, é para chegar a si mesmo. Ou consegue fazer isso, ou não consegue escrever.

Mas, diz a segunda frase, encontrada por Monteiro em um muro de Ronda, “o que quer que faça, você se arrependerá”. Nunca terá o sucesso que espera _ ainda que possa obter tipos variados de sucesso. Nunca escreverá o que deseja escrever _ ainda que lute, todo o tempo, para isso. O resultado do esforço para escrever será, sempre, nsuficiente. Nunca estará à altura daquilo que o escritor espera. Nada se parecerá com o que planejava escrever.

E por isso, porque guardará esse sentimento de desencontro, um escritor _ um homem _ sempre se arrependerá, um pouco, do que fez. Chegar a si e, no entanto, permanecer um tanto distante de si. Lutar para encontrar seu lugar e, ainda assim, permanecer distante disso. Estar, mas não estar. Escrever, mas não escrever. A experiência da escrita é uma experiência paradoxal. Você bordeja o que persegue, se aproxima, está quase lá. E no entanto, ao fim, ficará sempre pouco aquém. Estará um pouco arrependido, ou frustrado, diante da insuficiência do que fez.

Ninguém faz o que planeja, embora o escritor deva lutar por isso até a última linha. Ninguém chega ao que quer, embora essa deva ser a grande obsessão do escritor. Por isso mesmo, a atividade do escritor é interminável e, além do mais, obsessiva. Sem chegar jamais ao que busca, o desejo de chegar não se esgota. A obsessão é uma das marcas da atividade literária. Junto com ela, ou seu reverso, o sentimento contínuo de desaprovação, e até de derrota. Todo escritor é, um pouco, derrotado pelo que escreve. O texto promete lhe dar algo que seja absolutamente seu, mas nunca faz isso. Promete dar algo que com ele se pareça, mas o resultado nunca se parece completamente com o que ele é, ou deseja ser.

Daí a inutilidade de certa visão pragmática que predomina hoje no meio literário. Escrever “com objetivos” _ isso leva a algum lugar? Escrever “à moda de” _ isso não será fugir um tanto de si? Escrever para conquistar isso ou aquilo _ não será essa uma maneira mortífera do escritor se afastar de seu texto? Para chegar ao que é, grande paradoxo, o escritor precisa aceitar que jamais terá isso. Para não se arrepender, o escritor precisa aceitar que, no fim da escrita, o arrependimento é certo. Conviver com isso, suportar isso: eis o que se pede dos escritores corajosos. Existem muitos. Debruçados hoje sobre seus escritos, eles lutam, em resumo, para não desistir de si.

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