Fernando Pessoa

Por José Antônio Rodrigues

Da permanência de Fernando Pessoa na língua e na literatura do século XXI

A minha pátria é a língua portuguesa
Fernando Pessoa

Desde minha adolescência, então marginalizada, acostumei-me a escutar com freqüência, através dos discursos de meus amigos, construções parafraseadas de idéias, versos ou simplesmente intenções verbalizadas que me pareciam interessantes, dado o caráter existencial despreocupado, desencantado e pleno de uma dignidade ontológica, muito assemelhada a uma aparente malade psicológica. Descobri, pouco tempo depois, que ali havia um belo trago da poesia de Álvaro de Campos. Achava fascinante ou transcendente. Ler Campos parecia basear-se em alguma purificação sublime. Parecia que o sentia por perto, de alguma forma.

Até que entrei em contato com a obra Mensagem (1934) composta por Fernando Pessoa, obra prima, tida como escrita pelo ortônimo. Foi daí em diante que tive um contato mais lúcido e amoroso para com a obra do  poeta português, quando compreendi, o porquê, de quê, mesmo em uma localização desprivilegiada, em uma época “invisível”, de uma área estigmatizada (Zona Norte de Natal). A única ligação aparente que se estabelecia com Portugal era a lembrança de um chamado descobrimento e uma colonização mal estudada nas aulas de História. Dei-me conta de que a poesia de Pessoa não pode ser conjugada no passado ou deve assim ser, por ser de lá. Bem como aquelas pessoas, mesmo que inconscientes, ou por mero modismo, ou por simples imitação, de alguma forma, eram tocados sensivelmente por uma das facetas atemporais do moderno ou supra–moderno vate Português; assim sendo, mesmo que em breve reminiscência, a sua mensagem resiste na língua e na literatura do Ocidente.

Assim sendo,  essa relação de Pessoa com a língua e a poesia vai ao encontro das palavras de Caetano Veloso em uma entrevista: “o simples fato de já ter encontrado versos de Pessoa como tradição da nossa língua, necessariamente faz com que ele esteja também em mim”. É fácil perceber e receber a “Autopsicografia” de pessoa ou seu “Poema em linha reta” em vozes populares, em canções e, de forma mais excepcional, na literatura de tom acadêmico, mesmo na crítica literária é possível constatar esse fenômeno.

O lingüista russo Roman Jakobson, um dos principais nomes da linguística moderna, escreveu um ensaio acerca da poesia de Fernando Pessoa; em seu Oxímoros dialéticos de Fernando Pessoa, diz: “a obra do escritor português é uma arte ‘essencialmente dramática’, cuja complexidade se acha submetida a uma estruturação integral.”. Com efeito,  o lingüista percebe a capacidade  dramática exercida na obra pessoana, no sentido de que é capaz de desdobrar-se em inúmeros personagens.

Composição da estrutura poética, constituída por excelência. Se observada a organização dos heterônimos, na poética e na forma como Pessoa resolve publicá-los, composta de uma totalidade em sua “fragmentação”, nota-se a poesia e a vida organizada numa trama teatral “perfeitamente” encenada, conduzindo-me a uma lembrança do filme O Grande Truque, do diretor Christopher Nolan (Batman Begins, Amnésia). Nesse espaço cinematográfico as atuações de Hugh Jackman e Christian Bale, cujos personagens, por sua vez em suas atuações, fazem de tudo pela “perfeita execução de sua arte” vivendo-a antes de tudo.

A opinião do poeta e ensaísta mexicano Octávio Paz, que com certeza é um dos principais nomes da literatura hispano-americana, principalmente pela obra El arco y la lira. Disse, enfim, que a autenticidade dos heterônimos depende de sua verossimilhança. Foram criações necessárias, obrigaram-no a que ele as inventasse. Considerando que escrevemos para ser aquilo que não somos, ou para ser aquilo que somos, e no momento em que nos encontramos, descobrimos que somos um desconhecido, como um desvelamento de um oculto outro, inseparável, alheio, um eu e você juntos e sozinhos. Que se desdobram nos “outros”, cada vez que se aprofunda em si. Por ser todos e ninguém.

Ezra Pound afirma que literatura é novidade que permanece novidade, e é nessa circular reinvenção do novo que se inscreve o romance contemporâneo, sistema múltiplo de organização de conflitos e elementos que, ao compor-se como um texto adequadamente orquestrado, estabelece-se como mundo gerador de outros mundos. Nesse sistema, a linguagem em primazia é propulsora de vida, o ato criador. Nesse contexto, encontramos os romances O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984) de José Saramago e Budapeste (2003) de Chico Buarque de Holanda, que podemos considerar narrativas geradas por outras narrativas – externas ou internas – e que, por isso mesmo, se encontram em meio a paralelismos, ora citando-se ora enovelando-se em outras histórias como labirintos de linguagem. Estabelecendo uma espécie de diálogo com a obra de Pessoa, dando continuidade a obra do autor português.

Por um lado ao reivindicar a própria existência, independente de Fernando Pessoa, a personagem Ricardo Reis metaforiza a independência da literatura em relação ao mundo da realidade e revela a ironia de uma criatura que defende para si uma sobrevida para além da vida ou da morte daquele que a criou. De outra parte, no caso de José Costa (protagonista da obra Budapeste), é a língua húngara que, segundo o romance, se constitui como única no mundo que o diabo respeita. Isso permite ao personagem a construção de uma nova identidade, considerando que, as originais (língua e identidade) lhes são usurpadas em um doloroso processo de alienação. Nos dois romances, encontramos traços fundamentais da poética pessoana: a língua, a identidade, a independência da literatura em relação ao mundo e a ironia.

Enfim, não há como negar a permanência de Fernando Pessoa na vivência espiritual e material do início século XXI, haja vista a vasta difusão de excertos, versos, nacos de frases repetidos na língua portuguesa falada no Brasil. Quer entre os escondidos nos Castelos de Marfim ou entre os residentes dos subúrbios do fim do mundo. Podemos, através da literatura de Fernando Pessoa, sentir “coisas” que se sustentam enquanto necessidade de contemplação ou, quem sabe,  por alguma busca pela tão distante completude num caminho existencial. Em Fernando Antônio da Nóbrega Pessoa o que é necessária é a ação, no caminho do pensamento: a arte é mestra da vida.

José Antônio Rodrigues. Graduando em letras pela UFRN. Bolsista PROPESQ de iniciação científica da Pró–Reitoria de Pesquisa.

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