Fernando Pessoa: genial, vaidoso e sem imaginação

Por Leticia Lins
O GLOBO

Pernambucano traça perfil do poeta e descobre 55 novos heterônimos

Com apenas 3 anos, Fernando Pessoa já juntava letras que via em jornais e revistas. Aos 4, escrevia frases inteiras. Ainda bastante jovem lia um livro por dia. Aos 18, prometia dobrar essa quantidade: “um de poesia ou literatura, outro de ciências ou filosofia”. Foi um escriba compulsivo e ao longo de sua vida — entre 1888 e 1935 — encheu aproximadamente 30 mil papéis, o equivalente a 60 livros de cerca de 500 páginas. Diluiu o excesso de verbo em uma multidão de “autores” e chegou a usar 202 nomes diferentes, sendo 127 heterônimos, embora se acreditasse até agora que esses somavam “apenas” 72, sendo Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis os mais conhecidos.

A revelação dos novos heterônimos já seria uma novidade sobre um autor tão estudado. Mas há outra ainda maior e mais inesperada: o poeta não tinha imaginação. Quem garante é o pernambucano José Paulo Cavalcanti Filho, que lança hoje, no Centro Cultural dos Correios, o livro “Fernando Pessoa — Quase uma autobiografia” (Editora Record). O lançamento acontecerá na abertura da mostra “Fernando Pessoa — Plural como o universo”.

Transcrição do mundo ao redor

Com quase 700 páginas, esta é a primeira biografia sobre o poeta português escrita por um brasileiro, a quarta do mundo e talvez a mais completa. Pessoa já conta com pelo menos seis mil livros sobre sua obra, mas só dispunha, até o momento, de três biografias, escritas emPortugual, Espanha e França, entre 1950 e 1996. Cavalcanti — um dos mais conceituados advogados de Pernambuco, membro da Academia Pernambucana de Letras — passou quase uma década pesquisando o poeta que passou a admirar desde bem jovem, aos16 anos.

A principal novidade do livro é a apresentação dos 55 heterônimosainda desconhecidos dePessoa. Mas entre algumas outras curiosidades está a afirmação de que um dos autores mais celebrados da língua portuguesanão tinha imaginação.A prova, segundo Cavalcanti, que chegou a entrevistar pessoas que conviveram com o autor, é que tudo o que o poeta registrouem prosa e verso nãopassou de uma transcrição do mundo a seu redor: — Percebi que tudo o que ele escrevia era sobre ele mesmo, os amigos, as angústias, as inquietações literárias. Saía recolhendo datas, personagens e fatos até para compor as biografia dos seus heterônimos. Então comecei a pesquisar e tudo se encaixou. O que se pensa que é imaginação, não é, tudo está ali, ao lado dele. No poema “A tabacaria”, por exemplo, há cinco personagens que realmente existiram.

Cavalcanti traça um perfil fascinante do homem. Seus anseios, sua vaidade, seu misticismo (dizia se comunicar com espíritos),o sacrifício em nome da estética (usava óculos com grau aquém do que precisavapara evitar o efeito “fundo degarrafa”), a solidão interior, seu cotidiano quase banal. — Era uma vida limitada. Não cometeu nenhuma vilania, mas também nenhum ato de heroísmo. Era um anônimo, que se esforçava por ser ainda mais discreto.

A vida afetiva também não foi emocionante. Há comentários sobre casos amorosos e visitas frequentes a bordéis, mas Cavalcanti descobriu um amante meio apático, que falava maldas mulheres, e com traços que ressaltavam a homossexualidade, embora não haja indícios de que tenha se relacionado sexualmente com homens.

— Essa tendência (homossexual) atravessa os heterônimos, sobretudo Álvaro de Campos, que era assumidamente gay. Acredito que se ele vivesse nos dias de hoje talvez se assumisse — supõe Cavalcanti

Ele lembra ainda que mesmo vivendo uma relação amorosa com Ophelia Queirós, que foi sua grande paixão, o poeta não chegou a ter relações sexuais com ela. O pernambucano não tem provas, mas registra uma versão pessoal para o retraimento sexual do poeta:

— Ele tinha um amigo, Antônio Botto, que era homossexual assumido, apesar de casado. Ele contava ter ficado assustado com o tamanho do pêni de Pessoa, que seria muito pequeno. Não tenho como provar, mas minha explicação é que por isso o poeta não tinha coragem de se expor perante as mulheres.

Cavalcanti já tem 18 livros publicados (como autor ou coautor), mas “Fernando Pessoa” é sua obra mais ambiciosa. A pesquisa rendeu material, inclusive, para novas publicações: ele já tem três livros planejados sobre o português

Exposição destaca as faces do poeta

Catharina Wrede

● “Viver não é necessário. Necessário é criar”, escreveu Fernando Pessoa. A frase exprime com precisão a vida e obra do poeta português, que, em seu mundo interior, fantasiou e deu voz a multidões: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares, além de outras tantas figuras. E são estas mil faces que formam a exposição “FernandoPessoa, plural como o universo”, que será aberta hoje no Centro Cultural Correios, às 19h. A mostra, organizadapela Fundação RobertoMarinho e que levou 190 mil pessoas em seis meses ao Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, não tem roteiro fixo.

— É preciso ver a exposição com a visão de mundo de Pessoa. A liberdade de escolha é intrínseca à sua obra — diz Carlos Felipe Moisés, curador da mostra ao lado de Richard Zenitch.

O cenógrafo Hélio Eichbauer recriou os espaços para o Rio, mas manteve a mesma estrutura.

— Aqui, acho que a exposição ficou mais bem colocada e cenicamente é mais envolvente — diz.

OUTROS PESSOAS

● Além da extensa biografia lançada por José Paulo Cavalcanti Filho, o poeta portuguêsé objeto de outros dois livros que estão chegando às prateleiras, ambos dedicados ao leitor jovem. Em “Fernando Pessoa e outros pessoas” (Editora Saraiva), o ilustrador Guazzelli apresenta, no formato de quadrinho, uma breve mostra da produção do poeta, com roteiro do professor Davi Fazzolari. Em “O poeta que fingia” (FTD), Álvaro Cardoso Gomes conta a vida de Pessoa misturando ficção e realidade.

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