Fernando Sabino – uma homenagem

Descobri a obra do escritor mineiro Fernando Sabino (Belo Horizonte, 12 de outubro de 1923 – Rio de Janeiro, 11 de outubro de 2004) a partir da leitura do livro “Elenco de Cronistas Modernos”,  numa edição José Olympio de 1975, capa e sobrecapa branca e verde, e que eu lia avidamente em minha adolescência nos já distantes anos 80,  acompanhando-me o volume como uma espécie de Bíblia particular.

Nesse livro, além daquelas lições do texto breve de Sabino, havia crônicas escolhidas de Carlos Drumonnd de Andrade, Clarice Lispector, Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz e Rubem Braga. Pequenas obras-primas.

À época, chamou-me especial atenção aquele estilo límpido, ágil e bem-humorado das crônicas de Fernando Sabino, como, por exemplo, o que se fazia estampado no texto antológico de “A Última Crônica”, que tem como pano de fundo um peculiar aniversário.

Depois, li quase toda a obra de Sabino. E comecei por um livro engraçadíssimo chamado “O Grande Mentecapto” (1979), um romance picaresco que mata qualquer um de rir (posteriormente, em 1986, foi transformado em filme – que vi, se não me engano, no saudoso Cine Nordeste – com o ator Diogo Vilela fazendo o papel principal de Geraldo Viramundo).

Ainda tenho algumas edições originais (com aqueles dorsos coloridos e capas invariavelmente brancas) de Sabino, como o seu primeiro livro “Os grilos não cantam mais” (de 1941, reeditado em 1984), além de “A mulher do vizinho (1980), “O gato sou eu” (1983), “A faca de dois gumes” (1985). Tenho, também, toda a obra reunida pela Aguillar, onde consta o seu mais famoso livro “O Encontro Marcado” (1956) e vários outros.

Tive a oportunidade de ver Fernando Sabino por três vezes.

A primeira foi num evento chamado justamente “Encontro Marcado” (que aconteceu, em Natal, no auditório principal da UFRN) em que havia, por todo o Brasil, palestras de escritores importantes, como Ignácio de Loyola Brandão, Marina Colasanti, dentre outros (talvez, para Natal, tenha sido esse o precursor do ENE e de outros eventos).

Na segunda vez, quase esbarrava com Sabino e sua filha cantora Verônica na esquina do calçadão do velho Hotel Ducal. Que encontro maravilhoso que aquele (este) adolescente vivenciou (mesmo que não marcado)!

Na terceira vez, eu já havia lido quase todos os seus livros e fui, em companhia de meu pai, ao lançamento de “A faca de dois gumes” (que também foi transformado posteriormente em filme), que aconteceu lá no velho Zás-Trás. Naquele acontecimento eu contava com 15 anos de idade e não tive nenhuma vergonha de levar uns oito livros de Sabino para que ele autografasse. E o melhor aconteceu, para escândalo, certamente, de alguns pretensiosos e antipáticos intelectuais que fazem pouco caso de seus admiradores: Fernando Sabino não se negou a autografar nenhunzinho e todos eram diferentes e longos autógrafos!!! E, ainda de quebra, bateu altos papos com papai e me fez um elogio. O máximo! O máximo!

Tenho aqui uns que quero transcrever para conhecimento geral. Vejam que beleza e que generosidade a de Sabino, primeiramente autografando “O Grande Mentecapto”:

“A Lívio, esta lembrança do nosso irmão espiritual Geraldo Viramundo, O Grande Mentecapto (Sabino usara aqui o título impresso do livro, intercalando-o entre as suas palavras manuscritas), a que se associa com um afetuoso abraço, o Fernando Sabino. Natal, 16/6/85”.

No livro “Os grilos não cantam mais”, Sabino escreveu para mim:

“Ao Lívio, com inveja dos seus 15 anos, e a certeza de que você haverá de vencer. O melhor abraço do seu Fernando Sabino. Natal, 17/6/85” (curiosamente, Sabino mudou a data, conforme veem através do cotejo com o autógrafo acima).

É, meus amigos e amiga, tem umas lembranças que emocionam…

p.s. 1. Talvez, Fernando Sabino tenha cometido um único grave erro em sua trajetória intelectual: uma certa biografia da ex-ministra da Fazenda Zélia Cardoso de Mello. Chamou-se “Zélia, uma paixão” e não trouxe muitas alegrias para Sabino, que terminou a vida meio magoado com a imprensa (que nada perdoa);

p.s. 2. Fernando Sabino foi um excelente baterista de Jazz. Mais um motivo para eu ter sido e continuar sendo fã do cara;

p.s. 3. As gerações escolares atuais precisam resgatar esse nome e a leitura de sua obra.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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