Ferreira Gullar: um poeta que comeu mosca

Por Jeosafá Fernandez
NO AMPLEXO DO JEOSAFÁ

Na eleição presidencial de 2010 o poeta Ferreira Gullar manifestou-se abertamente em favor da candidatura José Serra, coerente com a trajetória que vem desenvolvendo nos últimos 15 anos, ao menos.

Sendo ele eleitor apto, sua escolha política é legítima, e deve ser respeitada. Se Médici estivesse vivo e fosse candidato devidamente registrado, seria do jogo democrático que eventualmente o escolhesse também.

Sucede, como o poeta gosta de dizer, que a questão não é apenas o direito legítimo de um eleitor votar em quem quiser, mas a de um eleitor como Gullar votar desinformado, e isso no caso de um intelectual de sua estatura é indesculpável.

Sucede, retomando o cacoete do poeta, que o candidato Serra não informou ao eleitor-poeta que, enquanto aceitava candidamente seu voto, orientava o Secretário Paulo Renato da Educação de São Paulo a organizar uma verdadeira ordem inquisitorial para vetar obras literárias.

Chefiada pelo ex-ministro de FHC, essa ordem medieval discípula de Torquemada verificava nos livros, linha a linha, a presença de vocábulos que conspurcassem os olhos de alunos ou de professores.

O saldo dessa caça às bruxas é que obras já clássicas, tais como Corpo, O Amor Natural e Farewell de Drummond, foram vetadas. Toda a obra de Plínio Marcos idem. O mais representativo de Rubem Fonseca, ibidem, entre muitos, muitos outros.

O poeta maranhense radicado no Rio poderia afirmar: até aí, não mexeu comigo.

E aí reside a falta de informação crucial: mexeu sim.

Sua Poesia Completa, Teatro e Prosa, embelíssima edição da Nova Aguilar foi vetada integralmente. E foram vetados também todos os livros seus que contivessem termos “pornográficos”. Seu Poema Sujo, considerado por Vinícius de Moraes um dos principais da literatura brasileira do século XX, está interditado até para envio a professores.

Nos últimos anos Gullar vem acumulando equívocos. Em entrevista a uma TV, anos atrás, assisti estupefato o poeta, de corpo presente, defender a tese de que a resistência armada à ditadura era uma completa porra-louquice e que ela, a resistência, era culpada pelo endurecimento do regime militar, tese que corrobora com os argumentos dos torturadores de que os torturados são culpados da própria tortura.

No caso do alinhamento com José Serra, também apoiado por TFP e neonazistas, estou dando ao poeta o benefício da dúvida. Porém, justiça seja feita, já faz tempo esse grande poeta tem andando em más companhias.

E uma vez que fez campanha para Serra, não custa nada solicitar a ele que intercedess junto ao novo governador, também tucano, a gentileza de desenterditar sua obra, cuja presença na estante de estudantes de Ensino Médio e de Professores só pode fazer bem.

Afinal, de alguma coisa deve servir declaração de voto tão mal informada, no mínimo.

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. françois silvestre 9 de fevereiro de 2011 21:22

    Pois é. Mas ninguém desce o malho em Jorge Luis Borges, que aplaudiu e defendeu uma ditadura tão ou mais cruel que a nossa. Tudo em nome da “forma poética”.

  2. Marcel Lúcio 9 de fevereiro de 2011 14:33

    Ferreira Gullar, talvez o mais importante poeta vivo da literatura brasileira, nos últimos anos vem acumulando uma série de posturas equivocadas…
    Uma pena que seu ímpeto revolucionário tenha cedido lugar a atitudes elitistas e absurdas.
    Gostaria de reencontrar o Gullar dos anos 70 em alguma parte alguma…

  3. Jarbas Martins 9 de fevereiro de 2011 12:39

    Augusto de Campos foi até profético.Ainda nos anos sessenta,nos anos de chumbo, decepcionado com o oportunismo e autopromocionismo desse maranhense, que queria estar, a todo custo, na crista da onda artística,apelidou-o de GULLARTE.O apelido caiu-lhe como uma luva.Esse áulico de José Sarney, que foi do Partidão (porque achava que aquilo lhe daria status), por ser bandeiroso, acabou sendo preso e torturado.Aqui tenho de compreender que ser bandeiroso, era uma gíria que nós jovens usávamosa(patrulheiros imberbes e inexperientes que éramos) para julgarmos os que não estavam alistados nas organizações ultraesquerdistas.Nesse ponto tenho atenuantes para entender certas ações que a antiga esquerda imputava, como nocivas, ao poeta Gullar.Ele tinha o direito de expressar abertamente suas conviccções.E o crime que a Ditadura praticou contra a ele é hediondo.Nesse ponto, como cidadão, respeito-o.Não o respeito como o lacaio que se tornou.Sua grande poesia, dos seus tempos jovens,ficará.Uma ou outra poesia dos tempos de hoje, talvez.É que a Poesia, que é tão artística quanto verdadeira, não poupa os desertores e a inautenticidade.No campo da estética, esse áulico de José Sarney adentrou a seara artística, com uma voracidade impressionanate.Da simpatia pela Poesia Concreta, da qual comeu generosas fatias, e cuspiu no prato, mandou-se para o Neoconcretismo, sem antes mordiscar as estrofes da poesia de cordel, pois segundo ele a Revolução e o povo estavam ali.Politicamente levantou muitas bandeiras.Roendo os ossos de todas crenças, ideologias, fórmulas,bulas, receituários, estéticas e éticas políticas e ideológicas, chegou aonde chegou.Está, agora, comendo moscas.

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