Fiama Hasse Pais Brandão

Por José Antônio Rodrigues Júnior

Quando a poesia discute poesia
Fiama Hasse Pais Brandão e as Rosas na Área Branca

Quem não fizer do idioma espelho
de sua personalidade não vive.
Guimarães Rosa

Entre sua produção poética, Fiama Hasse Pais Brandão publicou em 1978 o livro Área Branca, contendo uma seqüência de poemas enumerados que receberam o título de Rosas. Em suas Rosas percebe-se que a poeta usa a metáfora da rosa para expor sua dicção peculiar em uma legitimação do falar da rosa com uma atenção ao real, justificada no ver a rosa; com isso, a experiência da linguagem artística que Fiama apresenta consiste no signo que escapa a designação simples, envolvendo-a de possibilidades que se multiplicam no desenvolver-se de sua poesia. Cortando segmentos da realidade, faz sua crítica à poesia de então. Fundamenta sua poesia edificando em suas Rosas um verdadeiro tratado de crítica literária.

Assim sendo, a poeta portuguesa acrescenta à poesia a possibilidade da metalinguagem na metáfora da rosa, estabelecendo assim, e de acordo com os poemas enumerados por essa alcunha, um paralelo entre as características físicas e metafísicas da rosa e suas semelhanças com a crítica em suas possibilidades. A beleza da rosa conota a composição textual bem elaborada, juntamente com a pungência de seus espinhos em sua potencialidade de afetação, demonstra sua erudição, equilíbrio e consciência no uso preciso das palavras.

É consabido que crítica é metalinguagem, linguagem sobre linguagem; a linguagem desse objeto é a obra de arte, sistema de signos dotado de coerência textual e originalidade; linguagem-objeto.

Com enfeito, visto que no sexto poema de suas Rosas podemos perceber que se configura como um ensaio crítico de poesia, uma rosa dentre as rosas, um capítulo de seu tratado, isso é justificado à medida de sua leitura. Nota-se uma ruptura com o ritmo, com a rima. Considera-se poema por está formatado em um livro de poemas, assim como outros poemas da obra da poeta, poderíamos, facilmente, sem alterar uma palavra formatá-lo em pequeno ensaio para alguma revista de poesia e outros objetivos afins.

É bem verdade que esse poema é composto de estrofes, no entanto esse foi um recurso estético utilizado pela autora para que o leitor compreenda a sua unidade, a sua coerência, seu princípio: posição quanto ao que irá se discorrer no texto; meio: o esclarecimento dos motivos pelos quais a poeta escolheu sua posição; e, por fim, a conclusão.

O poema trata de poesia. A poeta faz uma ode ao Surrealismo (especialmente a gravura surreal de Nadal, Nery e Parente: pintores portugueses) como forma de composição. De maneira breve e concisa, discute o seu propósito de transfundir a realidade, concreta, e de seus fragmentos, apresenta-nos seu encanto, ou em suas palavras: “…sem noção da minha própria corda de metáforas disposta como estou a não escolher no leque de todas as varas da aragem..” e ainda no segundo bloco de versos em seguida escreve: “Os surrealistas que haviam gerado o surreal/ através do discurso do fraccionamento / olham agora estes quistos ou blocos irreais fixos / por vezes apontando para o imaginário através de uma fixidez absoluta do real…” Fiama evoca os surrealistas para apontar ao fato de que uma composição para ser consistente necessita de uma vertigem resulto da oscilação entre o real e o imaginário, onde os pensamentos juntamente com os sentidos processam o embate dialético, vislumbrado no que revela o caos da realidade em que os resquícios de razão desnuda um hermetismo surreal, dando espaço à beleza da poesia. Em função disso, torna-se difícil “deslocar os significados, que a persuasão normal age inversamente.”

E para encerrar sua posição, Fiama faz uma analogia da gravura com o fazer do poeta. Ao alinhar uma gravura desses artistas à sua forma de escrita ela demonstra que a poesia, ou a arte em geral, via de regra, depende imanentemente da subjetividade do artista considerando que bem como a “gravura de uma pomba de Emilia Nadal, com as pinças de caranguejo (…) o poema embora escrito sobre a pagina tem um ventre e patas móveis (…) o que transforma todos os poemas juntos em um aglomerado de carapaças ululante.” isto é, toda arte possui uma essência lírica mascarada por seus moldes, por sua forma de apresentação.

Com isso, Fiama Hasse Pais Brandão registra em seu poema uma espécie de ensaio literário que discute a relação entre real e imaginário na intensificação referente à realidade apresentada pelo humano. Sem esquecer de dizer que “as frases que compõe o poema,” ela “encontra o meio próprio para a semelhança da figura visível e o seu caminho rastejante ao longo das letras.” Portanto, a poeta é utente da metalinguagem para desvelar o ofício dos poetas, captar o mundo na realidade que está à vista de seus olhos.

José Antônio Rodrigues Júnior, graduando de curso de letras pela UFRN. Bolsista PIBIC de iniciação científica da pró-reitoria de pesquisa.

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