Fiat Lux

Por Antônio Prata

Nos natais e réveillons da minha infância não havia luzinhas coloridas pelas ruas. Quando chegava o fim do ano, a cidade seguia vestida como de costume: as árvores exibindo seus troncos caiados de branco, os fios de telefone balançando os mesmos rabos de pipa e velhos pares de Kichute — sabe-se lá quando ou por quem arremessados. Natal era uma questão doméstica: comprava-se um pinheirinho, punha-se na sala, penduravam-se umas bolas coloridas e pronto. Para a passagem do ano, vestia-se de branco, soltavam-se fogos.

A transformação começou lá por 1989: caiu o muro de Berlim, a União Soviética acabou, abriram-se os mercados, os “ventos da mudança” sopraram – como cantavam os Scorpions, na MTV – e trouxeram consigo pastas de dentes Crest, Nike Airs e luzinhas made in Korea. No Jornal Nacional, o presidente pilotava um jet ski. No prédio em frente, uma ou outra janela começava a piscar, iluminada pela árvore de natal, em sintonia com os novos tempos.

Com FHC e a estabilização da economia, as luzinhas saíram das salas e tomaram as frentes das casas, as fachadas dos prédios. Cada jardinzinho se esforçando para vencer o próximo, na livre concorrência da decoração natalina. As árvores luminosas e as frases de “Boas Festas!” e “Feliz Natal!”, escritas com os fios retorcidos, eram símbolos do recém conquistado consumo da classe média: depois de anos de contenções, a primeira florada de abundância, como as pizzas com borda recheada de Catupiry, o hot dog com duas salsichas, a bunda da Carla Perez.

Foi nos anos Lula, contudo, que a democratização das luzinhas coreanas atingiu seu auge. As classes D e E ascenderam, as lampadazinhas desceram. Como trepadeiras tinhosas, elas atravessaram as grades dos edifícios, ganharam as ruas, tomaram os postes, canteiros centrais, enredaram prédios, avenidas inteiras. O povo vem de longe para ver a decoração da Paulista: luzes brancas e coloridas, estáticas e intermitentes; algumas, até, penduradas em galhos ou postes, imitam gotas — ou seriam flocos? — caindo do céu.

A multidão aglomera-se nas calçadas, passa devagarzinho dentro do carro, tira fotos com o celular. No trânsito parado, o espírito não é nada natalino. A direita reclama: “povo nos Jardins?! Povo no aeroporto?! Povo por todo lado! Agora é assim? Vão ficar aqui, atravancando nosso caminho?” A esquerda resmunga: pensava que, no dia em que o povo tomasse a cidade, viria tocando tambores de maracatu, o jongo da serrinha, carregando em estandartes as raízes da nossa cultura. “Então é isso que eles querem? Papais Noéis de isopor, árvores de aço e lâmpadas, carro e celular com câmera? Tanta saliva gasta cantando Geraldo Vandré para terminar nesse Jingle Bell de teclado Casio…”

Ontem, passei meia hora numa esquina, entre forasteiros e locais, vendo uma agência bancária piscar como um vaga-lume e revelar nossos rostos admirados, raivosos ou frustrados. Prestemos atenção: talvez as milhares de luzinhas revelem alguma coisa —além do dinheiro no bolso — sobre os anos que vão nascer. O que será?

Comments

Be the first to comment on this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP