Ficção e ensaio

Por Cristovão Tezza
FSP

Uma amostra quase que didática da simbiose entre os dois gêneros encontra-se na novela “O Dia da Coruja”

A VOCAÇÃO ensaística do romance moderno, mesmo abalada pelos movimentos formais do início do século 20, que lutavam pela utopia da “literatura pura”, nunca saiu de cena.

Às vezes de modo escancarado nas mãos de um narrador onisciente, às vezes sutilmente tecida pela voz do personagem, a linguagem analítica do ensaio pega carona num traço fundamental dos gêneros romanescos: representar a palavra dos outros, dando-lhes alguma autonomia. Como tentar ver o mundo com objetividade é uma das faces do nosso olhar, o princípio de mimese romanesca não pode desprezá-la; o que a boa literatura deixa para trás, entretanto, é a presunção de certeza (que é a alma da ciência).

Uma amostra quase que didática da simbiose entre ensaio e ficção encontra-se em “O Dia da Coruja”, breve novela do italiano Leonardo Sciascia (1921-1989), ele mesmo uma mescla de escritor e político.

O livro, lançado em 1961, começa com a cena límpida de um filme: num árido vilarejo da Sicília, um passageiro é assassinado ao entrar num ônibus lotado. Como sempre, ninguém viu, ouviu ou sabe nada. O capitão Bellodi, novato na Sicília, é o encarregado de deslindar o caso. Ele representa um sopro de civilização num ambiente arcaico, silenciosamente dominado pela máfia e congelado em formas imemoriais de dominação.

A narrativa, elegante e econômica, atenta à graça da cultura siciliana, que absorvemos pelos olhos estrangeiros de Bellodi, contrapõe as providências policiais (que nas mãos do novo Capitão prescindem surpreendentemente da tortura, mas querem ir até o fim), aos diálogos dos mafiosos, vozes que funcionam como um coro trágico, reverberando alguma essência inexorável da Sicília. A voz da máfia, aqui, assimila e repete as formas coletivas populares, como um modo de eternizá-las na fatalidade.

“O povo era corno e continua corno: a diferença é que o fascismo só pendurava uma bandeira nos chifres do povo e a democracia permite que cada um pendure a sua.”

A estrutura policial básica -um crime avulso que, de pista em pista, alcança a máfia na distribuição de verbas das empreiteiras, o que certamente soa familiar ao leitor brasileiro- é o gancho para Sciascia pensar a alma da Sicília pelos olhos de Bellodi. “A família, pensava o capitão, é a única instituição realmente viva na consciência do siciliano (…). A família é o Estado do siciliano.”

A reflexão política que atravessa o livro se tempera pela intuição romanesca, em que a solidão siciliana é percebida como uma variável do mito trágico: apenas dentro da família “o siciliano atravessa a fronteira de sua própria, trágica e natural solidão. (…) Pedir-lhe que atravesse a fronteira entre a família e o Estado seria demais.”

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