Ficção e ilusão

Por José Castello
No A Literatura na Poltrona

Se há uma ficção que realmente desprezo, é aquela que afirma que a realidade, quando observada de modo direto e sem paixões, está imune às ficções.

Ao contrário, penso que as ficções se derramam muito além dos livros e se infiltram em todos os aspectos da vida cotidiana, sendo parte essencial não só do que chamamos de realidade, mas da própria ideia que temos a respeito da verdade.

Reli, recentemente, a nova edição brasileira do Decálogo do perfeito contista, publicado pelo escritor uruguaio Horacio Quiroga no ano de 1927. A nova versão do decálogo de Quiroga (1878-1937), organizada por Sergio Faraco e Vera Moreira para a L&PM, traz o comentário de vinte escritores brasileiros contemporâneos _ grupo em que tenho a honra de me incluir.

Ali esbarrei com uma ideia do escritor paranaense Roberto Gomes, autor do já lendário Critica da razão tupiniquim, de 1977, que vem de encontro ao que tento dizer. Comentando o sexto princípio de Quiroga, em que o escritor uruguai afirma a importância da palavra exata e justa, comenta Gomes que, de fato, devemos pensar que sempre existe uma palavra perfeita para o que desejamos dizer. Embora isso nem sempre seja verdade e, o mais grave, nem sempre seja desejável. Eu acrescentaria: quase nunca seja possível.

Mesmo trabalhando sobre um pântano _ o imenso caldeirão em que as palavras fervem _, o escritor, como qualquer ser humano, precisa se agarrar a ilusões provisórias, ou não conseguiria avançar. É comum ouvir de escritores jovens o desabafo de que ainda não estão preparados para escrever. Mas quando alguém está? “Ensinar a escrever”, se é que isso é possível, talvez não passe de estimular a crença nessas ilusões decisivas. Ensinar a acreditar e, um segundo depois, a quebrar a cara, para voltar a acreditar ainda uma vez.

O exemplo oferecido por Gomes em defesa de sua tese é precioso. Eu o reproduzo: “Marcamos todas as horas de nossa vida a partir da hipótese de que o sol gira em torno da terra ocupando 24 posições no céu. Isso nos serve admiravelmente bem e, no entanto, o sol não gira nem nunca girou em torno da terra”.

Apoiados nos ombros benignos de ficções coletivas e de ficções pessoais, conseguimos avançar e viver. O progresso nada mais é do que a substituição de uma ficção (verdade provisória) por outra ficção, precária e insuficiente também. Só por isso as narrativas se tornam inesgotáveis e a ideia de que a literatura pode vir a acabar não passa de uma tolice.

Nas ficções, experimentamos novas possibilidades, novos caminhos, novas ilusões. É ainda Roberto Gomes quem recorda, em outro momento de seus comentários, a pergunta que o francês Georges Simenon fazia a seus personagens. Uma vez criado um personagem, Simonen lhe (se) perguntava: “O que poderá fazer com que esse sujeito vá ao limite de si mesmo?”

Romances, contos, poemas alteram e deslocam os limites de nossa visão de mundo, mas esses limites, ainda assim, continuam a existir. Não é porque a liberdade do escritor é ilimitada que devemos acreditar em sua onipotência. Uma coisa é ser livre para tudo, outra bem diferente é poder tudo. É nessa fronteira que todo escritor esbarra e é diante dela que ele, a contragosto, declara um livro pronto. Isso embora, a rigor, todo livro esteja, sempre, inacabado.

Não é por outro motivo que não gosto de reler meus livros e, na verdade, raramente faço isso. As poucas vezes em que aceito ler em público pequenos trechos do que escrevi me traz, sempre, a sensação desastrosa de que não consegui fazer o que queria, de que me equivoquei completamente. A sensação aterrorizante de que aquilo que leio, enfim, não é meu. E, de fato, não é. Seu autor é apenas o homem que consegui ser enquanto eu o escrevia. Homem que já não sou mais.

Creio que por isso a literatura é tão sedutora: porque ela é _ para usar a feliz expressão de João Gilberto Noll _ uma “máquina de ser”. Terrível máquina, que, ao contrário das vendidas pela publicidade, não promete a felicidade, mas a infelicidade. As existências que ela produz nunca nos bastam, sempre nos frustram. Somos lançados de volta, então, ao ponto de partido e, por isso, em uma cadeia interminável, abrimos (e escrevemos) outros livros. Só por isso, porque a máquina nunca funciona como desejamos e sempre fracassa, a literatura continua a existir.

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