Fidel e o comunismo em Cuba

Dúvidas de Fidel quanto ao comunismo cubano e o antissemitismo iraniano

The New York Times News Service/UOL
Robert Mackey

O episódio pareceu ser um caso de quando a vida imita “Os Simpsons”. Fidel Castro disse durante uma entrevista recente para Jeffrey Goldberg da “The Atlantic” que o modelo econômico comunista se mostrou um fracasso.

Num texto de blog sobre a entrevista, Goldberg escreveu:

Perguntei se ele achava que o modelo econômico cubano ainda era algo que merecia ser exportado. “O modelo econômico cubano não funciona mais nem para nós”, disse ele.

Alguns leitores podem ouvir um eco de um episódio dos “Simpsons” de 1998, no qual uma versão de Fidel em desenho animado dizia a colegas desapontados: “Camaradas, nosso país está completamente falido. Não temos escolha a não ser abandonar o comunismo… Eu sei, eu sei, eu sei – mas todos nós sabíamos desde o começo que esse jumbo não voaria.”

Goldberg relata que sua primeira reação foi pensar em outra série de comédia norte-americana:

Isso me pareceu um momento típico do seriado Emily Litella. Será que o líder da Revolução disse simplesmente que, no fundo, “tanto faz”?

Piadas à parte, Goldberg também percebeu que Julia Sweig, especialista em Cuba que estava com ele na sala, interpretou a observação do homem que liderou a revolução comunista de Cuba desta forma:

Ele não estava rejeitando as ideias da revolução. Eu interpretei como um reconhecimento de que, sob “o modelo cubano”, o estado tem um papel grande demais na vida econômica do país.

Num discurso na sexta-feira, entretanto, Castro disse que seus comentários sobre a economia de Cuba haviam sido mal compreendidos por Goldberg e Sewig, informou a CNN. Em comentários feitos na Universidade de Havana e transmitidos pela televisão cubana, Castro disse que foi citado corretamente, mas que, “na verdade, minha resposta significava exatamente o contrário do que ambos os jornalistas norte-americanos interpretaram em relação ao modelo cubano… Minha ideia, como todos sabem, é que o sistema capitalista não funciona mais para os Estados Unidos nem para o mundo”, disse ele. “Como pode um sistema assim funcionar para um país socialista como Cuba?”

Num texto anterior sobre sua visita a Havana no blog, Goldberg escreveu que Castro, “o avô do anti-americanismo global”, estava preocupado com as tensões no Oriente Médio:

Sua mensagem para o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, disse ele, era simples: Israel só terá segurança se abrir mão de seu arsenal nuclear, e o resto das potências nucleares do mundo só terão segurança se, também, abrirem mão de suas armas…

A mensagem de Castro para Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã, não era tão abstrata, entretanto. Ao longo desta primeira conversa de cinco horas, Castro retornou repentinamente à censura ao antissemitismo. Ele criticou Ahmadinejad por negar o Holocausto e explicou porque o governo iraniano serviria melhor à causa da paz se reconhecesse a história “única” do antissemitismo e tentasse entender porque os israelenses temem por sua existência.

Castro também disse que a tradição cristão de culpar os judeus pela morte de Jesus está na raiz de séculos de antissemitismo. Goldberg relatou que o ex-líder cubano disse que queria passar algumas ideias para o presidente iraniano: ele disse que o governo iraniano deveria entender as consequências do antissemitismo teológico.

“Isso se estendeu por talvez 2 mil anos”, disse ele. “Não acho que ninguém foi mais difamado do que os judeus. Eu diria que muito mais do que os muçulmanos. Eles foram mais caluniados do que os muçulmanos porque foram culpados e caluniados por tudo. Ninguém culpa os muçulmanos por nada.”

O governo iraniano deveria entender que os judeus “foram expulsos de sua terra, perseguidos e maltratados em todo o mundo, como aqueles que mataram Deus. No meu julgamento, eis o que aconteceu com eles: seleção reversa. O que é seleção reversa? Por mais de 2 mil anos eles foram submetidos à uma perseguição terrível e depois aos massacres. Era de se pensar que eles desapareceriam. Acho que sua cultura e religião os mantiveram juntos como uma nação.”

Ele continuou: “Os judeus tiveram uma existência que é bem mais difícil que a nossa. Não há nada que se compare ao Holocausto.” Perguntei se ele diria a Ahmadinejad o que estava me dizendo. “Estou dizendo isso para que você possa comunicar”, ele respondeu.

Goldberg também relatou que Castro, que parece estar tentando encontrar um novo papel para si mesmo como um ativista antinuclear, expressou até mesmo arrependimento por seu comportamento durante a crise dos mísseis de Cuba:

Perguntei a ele: “Em determinado momento, pareceu lógico para você recomendar que os soviéticos bombardeassem os EUA. O que você recomendou ainda parece lógico agora?”

Ele respondeu: “Depois que eu vi o que vi, e sabendo o que sei agora, não era para tanto”.


Tradução: Eloise De Vylder

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