Fidelidade Perdida

Por Conrado Carlos

Se o que Nietzsche afirma sobre intimidade em excesso e a perda na qualidade de um relacionamento for verdade, o que sobra para quem vive há trinta anos com a mesma pessoa? Como abastecer fantasias, e o conseqüente desejo, por alguém que tanto conhecemos? Alguns apostam no diálogo constante. Outros, no arrefecimento das paixões, com o passar dos anos, para o entrosamento perfeito entre cônjuges, livres da ‘agonia’ sexual. No entanto, muitos optam pela pulada de cerca como tempero extra ao caldo insosso posto à mesa. E uma agenda oculta surge dos cuidados, das aflições impostas pela situação. Com isso, parceiros são expostos a dor. A cada traição, o adúltero promove a desconstrução da imagem que tem do outro de forma implacável.

O mesmo Nietzsche advoga que “o bom casamento tem por base o talento para a amizade” e que “é a partilha da alegria, não do sofrimento, que faz o amigo”. Pois é no momento de ausência, de afastamento que a narradora de “Nada a Dizer”, de Elvira Vigna, descobre a traição do marido Paulo, um sessentão maconheiro envolvido com N., vinte anos mais nova que o casal e também comprometida. A recente mudança do Rio para São Paulo vem acompanhada do início da relação extraconjugal, onde risadas e alegrias perdidas são reencontradas, ao passo que a superficialidade ofusca sentimentos reais. A sensação de procurar harmonia no lugar errado é constante. Paulo, porém, inventa viagens para se encontrar com a fogosa N., disposto a recuperar a virilidade que a Idade do Lobo furtou.

A esposa traída percebe a indiferença, até encontrar um e-mail revelador. A faísca no barril de pólvora. Brigas, perguntas, vergonha, lágrimas. Três meses de agonia separam a suspeita da confirmação. A recusa em aceitar as desculpas do marido é seguida de reflexões acerca dos objetivos pessoais dentro de uma relação. “Errar, para mim, teria sido a trepada única, que eu supunha ter acontecido […] errar é comprar um cigarro avulso numa banca de jornal. Ter um caso não é um erro, é uma decisão, é comprar um maço inteiro, é fazer algo que se quer”. Fato é que o tempo de convivência produz um mimetismo gradual, dependente dos acordos estabelecidos pelas partes envolvidas. E ao assumir uma amante, Paulo aniquilou momentos íntimos, a música e a poesia matrimonial. Certas palavras e brincadeiras são revogadas. Lugares e situações, evitadas.

Do começo difícil, onde incompatibilidades, brochadas, brigas transformaram os primeiros anos em um inferno, surgiu a afinidade improvável. Era um casal improvável, fadado ao insucesso. A liberdade baseada na monogamia, entretanto, culminou com a segurança e o comodismo adquirido após trinta anos de união. Silencioso, estático, a murmurar apenas mentiras, Paulo viu na reviravolta emotiva a fragilidade das aventuras mal planejadas. Agora, entre recuar e aceitar imposições, vê a mulher ressurgir das cinzas como uma brasa intensa e consistente.

Nada a Dizer
Autora: Elvira Vigna
Editora: Cia. das Letras
R$38,00

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dois × 3 =

ao topo