Filme de Glauber recupera “cinema novo” em Berlim

Berlim – O Festival Internacional de Cinema de Berlim projeta o filme “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, também conhecido internacionalmente como “Antônio das Mortes”, do brasileiro Glauber Rocha (1939-1981), expoente do “cinema novo” brasileiro e ao qual “se entende melhor hoje em dia que em sua época”, explicou hoje à Agência EFE sua filha Paloma.

Paloma Rocha, que trabalha para preservar e divulgar o legado de seu pai, autor de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e “Cabeças cortadas”, disse que a influência do cineasta continua presente em parte do cinema brasileiro, embora outros produtores “se desvinculem totalmente dele”.

O cineasta Joel Pizzini, que também trabalha na preservação do legado de Rocha, sustentou que em seu país há muitos cineastas que se dedicam a rodar filmes “direcionados ao mercado”, que “buscam confirmar a imagem exótica do Brasil, com sexo e violência” e que “se opõem” ativamente a seus precedentes cinematográficos.

“O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (1969), prêmio de melhor diretor do Festival de Cannes, foi projetado no Festival de Berlim dentro da seção Fórum, dedicada ao cinema experimental, por iniciativa da organização que já em 2006 exibiu a versão restaurada de “Terra em Transe”, também de Rocha.

Paloma Rocha destacou que a influência do diretor brasileiro influenciou cineastas contemporâneos como Martin Scorsese e os espanhóis Pedro Almodóvar e Carlos Saura, declarados admiradores de seu pai. “Glauber (Rocha) tinha um cinema muito próprio e particular, difícil de imitar, mas sua influência se estendeu a âmbitos artísticos muito atuais”, ressaltou.

Paloma Rocha trabalha agora na recuperação de filmes do cineasta, que rodaram basicamente na Europa, mas que não chegaram às salas de cinema no Brasil.

As novas edições de seus trabalhos vêm acompanhadas de entrevistas com o próprio diretor que “explica didaticamente sua visão à hora de criar cada filme”, assinalou.

Segundo Pizzini, essas reedições das obras de Rocha estão contribuindo para acabar com o “mito distorcido” que se tem no Brasil do cineasta, cujas obras são consideradas por muitos como “barrocas, incompreensíveis e áridas”.

Sua filha sustenta que o mito de “louco” de Glauber Rocha não veio unicamente de sua personalidade “delirante em algumas ocasiões”, mas da manipulação política que quis desacreditar determinados artistas durante a ditadura brasileira (1964-1985).

Para Paloma, os valores dos filmes de seu pai refletem “as ânsias de liberdade da América Latina” assim como “a inquietação, o desejo de mudança e o questionamiento” próprio da juventude.

Ao longo de sua vida, Glauber Rocha completou 10 longas-metragens e deixou outras 234 obras – entre ensaios, fotografias, poemas e roteiros de filmes, o que demonstra, segundo sua filha, que foi um “vulcão em constante erupção criativa”. (UOL)

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