Filme premiado pelo júri da Mostra é panfleto de mensagens rasas

Por Matheus Magenta
EDITOR-ASSISTENTE DA “ILUSTRADA” – FSP

O filme vencedor da Mostra de São Paulo deste ano, o alemão “Entre Mundos”, parte da relação entre militares alemães, um tradutor afegão e uma milícia daquele país para discutir a moral em meio a um choque de culturas.

A premissa clichê porém promissora se transforma em propaganda nas mãos da diretora Feo Aladag, que declarou em entrevistas ter feito o filme para, entre outras razões, deixar para trás a memória das atrocidades nazistas e reconstruir a imagem do exército alemão.

A trama acompanha o comandante Jesper (Ronald Zehrfeld), que perdeu o irmão na guerra do Afeganistão mas aceita voltar à região para liderar uma missão para defender afegãos contra o Taleban, após o vácuo deixado pela retirada do exército americano.

Quatro personagens servem de fios condutores da trama de “Entre Mundos”. Rasas, essas figuras não existem como pessoas reais, com passado, motivos ou dilemas morais, mas somente como elementos simbólicos.

O protagonista alemão serve como uma representação atualizada do exército do país, formado por pessoas com valores a princípio tão profundos que se sobrepõem à frieza da burocracia militar.

O tradutor afegão vira a ponte entre as culturas em choque, metáfora óbvia reiterada pela construção de uma estrada e pelo discurso de um personagem secundário.

Sua irmã representa o futuro do Afeganistão, por estudar mesmo que o país esteja em frangalhos pela guerra.

Já o líder da milícia local sequer levanta a discussão frequente nas invasões e ocupações militares em países em conflito: o aliado de hoje se tornará o inimigo no futuro, como o próprio Taleban?

O filme panfletário de Aladag, mais preocupado com a fotografia granulada e metáforas rasas do que com discussões morais derivadas de um contexto tão complexo, se esquece de desenvolver sua premissa inicial.

Não há conflito entre culturas tão distintas, exceto pela discussão em torno do abate de uma vaca ferida.

Surpreende que um filme como esse vença a Mostra numa disputa com filmes muito mais arrojados, que avançam na construção da estética cinematográfica.

O ucraniano “A Gangue” se vale de planos-sequência agoniantes e apenas linguagem de surdo-mudo para mostrar que não há santos no mundo. Já “O Pequeno Quinquin” usa o humor negro para desconstruir a polícia.

ENTRE MUNDOS
(ZWISCHEN WELTEN)
DIREÇÃO Feo Aladag
PRODUÇÃO Alemanha, 2014
QUANDO sáb. (1º), 20h30, no Cinesesc
AVALIAÇÃO ruim

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