Filmes

Por Caetano Veloso
O GLOBO

O filme (“O artista” – foto) nos leva a sentir quanta falta faz uma equipe de roteiristas americanos

Adorei a festa do Oscar quando a vi de dentro: o orgulho sincero (e justificado) que aquele pessoal de Hollywood tem por suas conquistas de excelência fez Los Angeles parecer real. Mas sempre acho difícil manter a concentração diante do show de TV anual que é a cerimônia de premiação. Acho chataço. Este ano vi boa parte. Como sempre, não consigo entender a maioria das piadas nem com nem sem tradutores. Tem gente que pensa que eu falo inglês. Eu finjo que falo. Aliás, sempre tive facilidade de imitar pronúncia de língua estrangeira. Mas o crucial é entender. Tenho ridícula dificuldade de entender inglês falado. Mas entendi tudo o que Meryl Streep disse. Depois, vi ao menos três dos filmes indicados.

Um se chama “A Dama de Ferro”. Não há uma gota de ferro no filme. É sobre uma velhinha solitária, uma espécie de Umberto D de saias, que, pelo que aparece nos péssimos flashbacks, teria sido primeira-ministra. Quando começou eu não cri que aquela velhinha fosse a Margaret Thatcher. Streep faz aquela composição aplicadíssima de sempre, com grande inspiração detalhista quando se trata de reproduzir a dificuldade de andar de uma anciã. E o sotaque. Mas a gente fica vendo o tempo todo três pessoas na tela quando ela está só (a maior parte do tempo): uma boa velhinha que está ficando gagá, uma imagem exterior que sugira a figura de Margaret Thatcher e, last but not least, a Meryl Streep. Sendo que a figura da primeira-ministra é usada como uma dessas máscaras de papelão que são a foto recortada da cara de alguém conhecido. Às vezes é a velhinha quem usa essa máscara, às vezes é indubitavelmente Meryl.

Outro leva o título de “O artista”. É muito bem. Feito com cuidado e dignidade. Há harmonia visual em todos os enquadramentos, e os atores são sempre excelentes (talvez sobretudo o cachorro, mas eu não gosto muito de cachorro). É impossível não se pensar em “Cantando na chuva” de um modo um tanto incômodo: a semelhança das situações iniciais não parece “homenagem”. Quando a loura burra reclama por não ter tido oportunidade de ir falar na frente da tela ao final da exibição do filme, temos mais a impressão (lisonjeira para “O artista”) de que estamos vendo as antigas cenas que inspiraram a fita de Stanley Donen e Gene Kelly. O encontro do astro com uma moça na saída da sessão é tão mais sóbrio (e menos engraçado) do que o de “Cantando na chuva” que volta a impressão de que aquilo é algo que se deu de fato no tempo do cinema mudo, e que “Cantando na chuva” fantasiou em cima. Mas não. O filme retoma o tema da passagem do mudo para o falado e termina levando a sério a decadência do galã, sem que alguma força de amor real se perceba entre ele e a moça que, falando, vira estrela. As piadas sobre o assunto são inspiradas e poéticas, do sonho com som mas sem voz às referências à fala e ao silêncio em várias situações. Também o encanto visual dos gestos coreografados do ator com o cão à mesa do café da manhã, e da moça fazendo as vezes do ídolo e de si mesma numa cena de amor imaginária em que veste metade do paletó dele, é intenso. Mas quando ele bota fogo nos rolos de celuloide a gente se lembra de “Bastardos inglórios” e acha que o material aqui não é nem de longe tão inflamável. Suponho que a trilha sonora ganhou o Oscar, mas o tema e a orquestração de Bernard Hermann para “Um corpo que cai”, que faz qualquer imagem ganhar pathos, acompanha o clímax da história. E, de novo, funciona tão bem em si mesma que não parece “homenagem”. O resultado final é mais para o esquálido.Com todo o desejo de celebrar os estúdios de hollywood, o filme nos leva a sentir quanta falta faz uma equipe de roteiristas americanos.

Gostei muito mais do “Hugo” de Scorsese. Não que seja um filmaço. É irregular e nem sempre convincente. Mas chega onde pretende chegar. Sou suspeito porque adoro 3D. É coisa de minha infância. E justamente o uso de três dimensões para homenagear Méliès resulta sublime. É assombrosamente adequado. Quando, depois de vermos o esboço feito pelo autômato da imagem da lua sendo atingida pelo foguete, revemos a famosa cena, agora com efeito de 3D, sentimos grande gratidão e afeto por aquele francês que imaginou e criou os primeiros filmes fantasiosos e percebeu logo a congenialidade do cinema com a ficção científica. Ver pessoas em três dimensões (e a cores) correrem com medo de serem atropeladas pelo trem borrado e em preto e branco dos irmãos Lumière é já algo de intensa poeticidade. Méliès montando seus cenários encantados dentro daquele estúdio de vidro, com aquelas cores e aquele relevo, é de fazer chorar. Ri quando o menino responde, na primeira cena depois do letreiro, à pergunta pelo seu nome com um “Ríugueu Cabrei” (com o erre retroflexo, é claro): se, num filme brasileiro, alguém fizesse o papel de um menino francês e dissesse que seu nome era “Úgu Cabrê”, todos ririam — e os especialistas diriam outra vez o quão mau é o nosso cinema. Mas o pessoal de língua inglesa tem direitos especiais adquiridos.

Embora eu ame Carlinhos Brown e Sergio Mendes, não sou fã da música de “Rio”. Mas acho esse filme melhor do que os outros de que falei. Que fazer? Sou assim. Esquisito. Voltei do Scorsese, liguei a TV e vi “O Bandido da Luz Vermelha” no Canal Brasil. Pensei em como “Reis e ratos” é tão mal compreendido porque esse filme estupendo de Sganzerla está criticamente entregue ao esquecimento.

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