O fim de um modelo

A vitória de Mauricio Macri, representante da ultra-direita neoliberal, nas eleições presidenciais argentinas revela que a força propulsiva dos modelos de governo progressistas da primeira década do século XXI na América Latina – em suas versões kirchnerista, lulista, chavista, etc. – está, tendo ou não seus representantes perdido o poder em seus respectivos países, esgotada (com a exceção, talvez, da Bolívia). Governos como os de Dilma, de Bachelet, de Maduro, de Cristina Kirchner não estão sendo só incapazes de reproduzir e ampliar as principais dinâmicas que caracterizaram o modelo que encarnam (um modelo contraditório, pois pautado num desenvolvimentismo produtivista, centralizado no estado e organizado a partir de estruturas hierárquicas e verticais de definição dos objetivos e dos modos de persegui-los): redução da pobreza; expansão do acesso à educação, à saúde, à moradia e outros direitos sociais; aumento relativo da participação popular, etc. Sobre tudo, eles cristalizaram um status quo não mais promotor de mudanças e refém – menos na Venezuela, onde o devir é travado pela própria inércia interna do sistema – do grande capital corporativo e financeiro (com o qual sempre estiveram aliados, embora no início numa relação ambivalente) e, em casos como o brasileiro, vergonhosamente cabisbaixo, testemunha passivo, quando não cúmplice do avanço de pautas da direita mais reacionária.

A saída, certamente, não é a vislumbrada pelo retorno ao neoliberalismo oligopolista (oximoro só aparente, pois é da própria natureza do neoliberalismo provocar a concentração da riqueza e do poder) dos Macris, Aécios e etc. Mas tampouco pode ser teimar em insistir no “mais do mesmo”, um “mesmo” que já não é capaz de mobilizar subjetividades e gerar transformações.

Está na hora de apostar na participação popular irrestrita e a democracia radical, pensando numa renovação do sistema político, das formas de representação e da própria forma histórica partido. Caso contrário, só consigo ver um horizonte de lama tóxica em que o continente irá cada vez mais se afundando.

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Anchieta Rolim 25 de Novembro de 2015 12:44

    TÁ DITO! “…Está na hora de apostar na participação popular irrestrita e a democracia radical, pensando numa renovação do sistema político, das formas de representação e da própria forma histórica partido. Caso contrário, só consigo ver um horizonte de lama tóxica em que o continente irá cada vez mais se afundando.” CONCORDO!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Go to TOP