Fins de tarde

menina pensando

… E à tardinha… Eles voltavam. Passavam em minha porta, chapéus rasgados, pés descalços, cigarro de palha… Um a um, olhavam para o meu sisudo pai que ali estava sentado em todos os finais de tarde, como quem fazia uma oração, postado à porta. Uma velha cadeira, como que saudando à tarde. Lembro-me do muro da minha casa, pintado em amarelo… Janelões protegidos por grades de ferro… De frente para o pôr-do-sol. Rua de areia, não havia asfalto e lá eles vinham… Eram os pescadores, que voltavam para o lar… Passavam um a um, nos cumprimentavam, com uma reverência incomum: – Boa tarde, senhor! – Boa tarde, sô – meu pai respondia.

Era um ritual que antecedia a Ave Maria de Gounod. Eu recostada no muro, achava maravilhoso aquele calor, para ver a tarde cair. Lá da cozinha, um perfume exalava… Batatas-doce, uma boa carne assada na brasa; um banquete nos esperava… Tia Zefinha, uma boa senhora que nos criou, companheira das lutas domésticas, fazia o café. Aquilo era como um incenso que sinalizava a noite… Meu pai, homem forte… Musculoso, bonito, cabelos lisos, bem-humorado – herdei dele o riso… Homem sério, homem calado. Parece que tinha o saber, para mim ele era o livro – havia nele um mistério, eu não conseguia ler. Mas era lindo o anoitecer. Ás vezes ouvíamos um som, era o sinal, um aviso de que o navio aportado anunciava a partida. E ele me dizia sábio: “o navio está indo embora”. Relatos da minha vida, partes da minha história.

Este homem mudo e tão calado, falava dos astros, das estrelas, das estrelas cadentes… E eu ficava contente; de tudo que ele dizia, era eu crente. Momento que não esqueço e quando assim, de repente, ouvia no rádio a canção mais bela, que até hoje escuto: “Ave… Maria… Maria, Maria…” Então minha mãe chegava à porta e anunciava o jantar. Ali começava uma ceia, meu pai, minha mãe, meus irmãos… Era uma comunhão que o tempo não vai apagar.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. Flaviana Fernandes Hansen 26 de julho de 2010 11:29

    Memórias, reminiscências de um passado que vale à pena recordar. Ah! a infância… Doces memórias… Um texto lindo, que resgata momentos que marcam a vida da poetisa.

    Parabéns.

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