Firmina

Conto republicado, a pedido do autor, com modificações.

Por Demétrio Diniz

Detinha a chave do cemitério, uma chave preta, grande e enferrujada que nenhum menino queria ver, e vivia de pequenas quantias que lhe dava a família do morto. Recebia pouco ou quase nada dos enterros pobres de rede, e fazendo as contas eram os anjinhos, nos seus caixões azuis, que remediavam a sua velhice de pernas tortas. Vindos de todos os cantos daquele sertão miserável de moscas e espinhos, eles obrigavam o sacristão todos os dias a bater o sino num repique fino e ligeiro, que era a sonoridade que acompanhava os cortejos dos inocentes até a entrada do cemitério.

Ouvia-se em qualquer casa do povoado o reco-reco do serrote, a plaina do carpinteiro aparando a madeira fresca, encontrada nos arredores e ainda perfumada, as batidas do martelo pregando as tábuas do caixão. Diante desses e outros anúncios da morte, os parentes tomavam o cuidado em batizar cedo as crianças, para que não ficassem errando no outro mundo, perdidas no limbo, sem destino certo.

Morriam sedentas, apenas uma lã d´água lhe passavam nos lábios ressecados pela febre. O choro, que no começo era alto, esgoelado, ia aos poucos se aquietando, até silenciar entre gemidos e convulsões. Era a hora em que apareciam as moscas, ninguém sabe de onde, e pousavam insistentes nos olhos roídos. Depois vinham as flores, silvestres quase todas, trazidas pelas meninas grandes que chegavam com sombrinhas de seda estampada e vestidos de laço.

Firmina não só não se importava mais com esse morticínio, como carecia dos anjinhos para viver. Pela manhã, sem nada para comer, circulava a praça da cidade, um xale puído nos ombros, inquieta lá pelas dez horas, quando o sol já ia alto. Uns poucos meninos que jogavam na areia a escutavam pedir num solilóquio a Deus que lhe mandasse mais um anjinho para poder comprar suas bananas.

As bananas eram as compridas, da casca verde, sabidamente indigestas. Assim mesmo voltava da bodega com um cacho delas colado ao peito, como se carregasse algo muito precioso, apoiando-se na sua bengala de mulungu cheia de nós. Em casa, depois do desjejum, sentava-se num tamborete que era o único móvel de sua casa, e rezava um terço. Concentrada, viam-se apenas os lábios se movendo, os olhos cerrados. Nunca se soube das intenções de sua reza. Para alguns pedia novos anjinhos, mas para dona Diumira que envelheceu com a ingenuidade de uma moça, Firmina requeria favorecimento para suas almas. O mais provável é que nas névoas da velhice e nos conformes da precisão, andasse misturando os motivos.

Com o tempo foi ficando sozinha, isolada, até o dia em que morreu entrevada, e foram necessários cinco homens para esticá-la no caixão da prefeitura.

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