Flipipa em noites de plenilúnio

Escritores Pablo Capistrano e Marçal Aquino

A II Festa Literária de Pipa FLIPIPA foi um sucesso de público, participação da comunidade e eventos paralelos, com destaque para a Flipinha e Flipout. A praia bela por natureza ficou mais bela ainda com as cores e nomes da grande literatura. Muitos escritores, poetas, professores, jornalistas e amantes da literatura compartilharam a alegria e magia do fazer literário.

Nas doze mesas oficiais da FLIPIPA teve de tudo. Do quadrinho ao twitter. Literatura africana, cangaço, história do Brasil em tempos de best seller, literatura potiguar e nacional. Ou seja: literatura em alto nível praticada por alguns dos seus principais protagonistas.

Logo na primeira noite de abertura da festa a mesa com o escritor moçambicano Mia Couto. Auditório superlotado e ao final uma fila imensa para autógrafos. Mia falou das influencias que recebeu da literatura brasileira e dos laços que unem África e Brasil. Lamentou dos vários dialetos moçambicanos que estão desaparecendo. Da sua primeira leitura de um autor brasileiro – Rachel de Queiroz -, na revista Cruzeiro e de como o escritor Jorge Amado era popular na África. Na opinião de Mia Couto, o conto “A terceira Margem do Rio” da obra “primeiras histórias” do Guimarães Rosa é o maior texto da literatura brasileira e o marcou profundamente. O autor de Terra Sonâmbula é um grande escritor de um país pós-colônia que também sabe falar sobre sua obra de altíssima densidade poética,

A primeira mesa do primeiro dia da FLIPIPA teve a participação do escritor Daniel Galera e o desenhista Rafael Coutinho, com mediação do Alex de Souza. Uma mesa bem descontraída que falava do processo de criação do livro a quatro mãos “Cachalote” que está sendo lançado em nível nacional. As perguntas da platéia foram sofríveis. Muita gente não entende que o quadrinho pode ser arte acoplada à literatura de alto nível.

No segundo dia o escritor Tarcísio Gurgel e a poeta Nivaldete participaram de uma mesa falando do romance Gizinha do Policarpo Feytosa, um dos nossos principais romancistas. Lançado em 1930 “Gizinha” é um belo livro que fala de modas e dos costumes em mutação na famosa década de 20 do século passado. A segunda edição desse romance saiu pela Fundação José Augusto e infelizmente estar completamente esgotado. O Tarcísio Gurgel escreveu o importante livro “Belle Époque na Província” que traz um bom relato histórico das oligarquias desde Pedro Velho até Juvenal Lamartine. Um olhar pioneiro sobre uma época esquecida da nossa história literária, onde Gizinha está inserido como limite superior da Belle Époque tarcisiana.

Ainda na segunda noite flipiana teve o escritor e roteirista Marçal Aquino mediado pelo escritor Pablo Capistrano. Gostei de saber que o Aquino escreve à mão para depois passar para o computador. A literatura é a pior das putas, disse o escritor. Reinventa-se. O livro é sempre melhor que o cinema, que precisa de atenção. Um par de filmes no Brasil é responsável por sua bilheteria. Existe uma diferença gritante entre a película e o vídeo. Em profundidade e qualidade. Bravo Aquino

A mesa sobre o cangaço teve a participação do Frederico Pernambucano de Melo, Honório de Medeiros e Clotilde Tavares, como mediadora. Honório escreveu o livro Massilon e Frederico o “Estrelas em Couro”. Belo livro com a rica iconografia do cangaço. O Frederico é o maior estudioso do cangaço no Brasil. A figura do Lampião tem um apelo internacional igual aos cavaleiros medievais e samurais. Diversos escritores brasileiros, Rachel de Queiroz, Zé Lins do Rego, Cascudo, Oswaldo Lamartine escreveram sobre o cangaço.

Muitos levantes ocorridos no Brasil mostram que o nosso país não é tão pacato como querem nos fazer acreditar. Muitos coronéis não eram inimigos dos cangaceiros, enfatiza Frederico provocando a platéia de muitos estudiosos e interessados no tema.

Os cangaceiros costuravam. A estrela hexagonal de Salomão que vinha no chapéu de couro era um dos seus amuletos, como a Flor de Lis era o símbolo da casa portuguesa de Avis.

No terceiro dia a mesa que mediei com a participação do grande escritor gaúcho João Gilberto Noll. A mesa “A literatura de Noll em tempos de pós-modernidade” teve ainda a participação da professora Ilza Matias Souza, da UFRN. A professora Ilza estuda o Noll há bastante tempo e reclamou da “maldita voz acadêmica”. A academia sofre da “doença da significância e interpretação”. A compartimentalização do saber em escolas, estilos e épocas é um fator empobrecedor.

Mas, a estrela da Noite foi o escritor J. G. Noll e a leitura performática de trechos de alguns de seus livros. O Noll e seus personagens que ele encontra em andanças solitárias pelas ruas. Vários personagens com parte de uma mesma pessoa – o escritor e sua aventura pelo inconsciente. Em alguns de seus livros existe algo híbrido entre a prosa e a poesia.

Noll é um escritor solitário que precisa do caos e trabalha no limite. Na mocidade pensou ser um cantor lírico e seus textos são entremeados de música e imagens. Um escritor imagético, como observou João da Mata que o provocou para ler um trecho do primeiro romance do Noll: A Fúria do Corpo. Um romance caudaloso e barroco que trata do amor entre dois mendigos, ao mesmo tempo que eles se prostituem para ganhar a vida.

Ainda estou em estado de êxtase com o Noll. Muitos colegas consideraram a sua participação – inusitada e única -, como uma das melhores mesas da FLIPIPA. Outros comentaram da linguagem que dessacraliza a literatura. Ora, ora, se é na linguagem que Noll revoluciona. Sé é com ela que ele reinventa a vida e seus personagens. Os pequenos detalhes da vida numa prosa exuberante. O acompanhante do aleijado diminui o ritmo. “Loucos são deuses em fúria”. O Noll é um dos maiores escritores vivos do Brasil. Conhecer seus livros foi um deslumbramento. Conversar pessoalmente com ele nos bastidores e compartilhar uma mesa sobre a sua obra foi orgástico.

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