Flipipa rumo à internacionalização


Folclore é uma merda, coisa de pobre? Só se for na opinião de Lobão e sua metralhadora cheia de mágoas. Parece regra em eventos literários: a atração mais pop é sempre a mais prestigiada, mesmo sem muito a dizer. No Festival Literário da Pipa também foi assim. A mesa com Lobão lotou. Mas também as tendinhas literárias e as oficinas de formação. E outras palestras mais propositivas, como a mediada pelo jornalista Osair Vasconcelos com os, antes de tudo, nordestinos, Moacy Cirne e Ronaldo Correia de Brito. A essência discursiva desta mesa foi também a da Flipa. Afinal, qual a linha divisória entre o regional e o universal?

Mesmo com a programação ainda indefinida, o evento já recebia a pecha de provinciano. Tudo por causa da participação de grupos folclóricos e da mostra de artesanato. Talvez Lobão também achasse o mesmo. Imagine se fosse discutido a Bossa Nova, como no último Encontro Natalense de Escritores. Para Lobão, a Bossa Nova é o retrato de um Brasil atrasado, coisa de bunda mole. O que é a cara do Brasil, então? Carmem Miranda? O romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos? O escritor que desbancou Saramago e Milton Hatoum como vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, Ronaldo Correia de Brito lembrou que o sertão está em toda parte.

Oswaldo Lamartine já disse algo parecido: o sertão está em cada um. Não é exatamente o sertão estigmatizado por Glauber Rocha e o Cinema Novo ou dos clássicos literários dos chamados regionalistas, mas o sertão/solidão; sertão de tristezas e paixões; um sertão tão grande quanto o mundo de cada um. Seja em terras áridas ou nos campos mais floridos. As mesas temáticas da Flipa poderiam acontecer em qualquer chão: na Pipa litorânea historiografada por Hélio Galvão, no sertão de Euclides da Cunha, na Galiléia de Ronaldo Correia de Brito, na periferia literária de Heloísa Buarque de Holanda ou no superficialismo de Danusa Leão.

A primeira edição da Flipa mostrou vigor para o futuro. A promessa de investimentos mais substanciosos por parte do secretário estadual de Educação, Rui Pereira, atesta o sucesso do evento e a necessidade da aposta em setores pouco explorados, como o marketing do Festival ou atrações musicais de renome nacional. “Se a governadora atender meu pedido, no próximo ano o investimento será triplicado”, disse. Prevendo, então, R$ 1,5 mil para a segunda edição, já confirmada para o mesmo período primaveril de 2010. A tenda literária para 270 pessoas ficou pequena. O curador e idealizador do evento, Dácio Galvão, já pensa em novo local, mais amplo. Talvez no estacionamento de ônibus, na entrada da praia.

Para Dácio, a Flipa foi a “ponta de lança” dos encontros literários realizados no Rio Grande do Norte. “Tivemos muito poucos, sendo um no governo de Aluízio Alves, na década de 60, depois outro promovido pela UFRN (Encontro Nordestino de Escritores) muito exitoso, as três edições do Encontro Natalense de Escritores (Ene) e agora esse nosso. E que se faça a diferença para as feiras e bienais, de cunho mercadológico”. Dácio coloca como diferencial da Flipa o sucesso das oficinas literárias e pedagógicas. Várias comunidades e cidades circunvizinhas participaram. “Acredito que acertamos também na escolha dos temas. O público foi presencial. Veja que o evento é feito no período de baixa estação de Pipa. Seria fácil lotar a tenda no mês de janeiro”, ressalta.

De fato. A participação tanto nas tendas literárias quanto nas oficinas ministradas por Raimundo Carrero foi de nativos da praia, turistas, estudantes e interessados em literatura. Os sotaques carregados em cada pergunta atestava o caráter democrático e popular proporcionado pela Flipa para um recanto até então pouco voltado à literatura e mais afeito à badalação, ao turismo ou à gastronomia, salvo o trabalho promovido pela já pipense Cíntia Junqueira – homenageada pelo evento. “Eu faço Flipa durante 24 horas por dia aqui em Pipa. Pensei que iria ficar de fora dessa”, disse a sempre hippie Cíntia, dona de um sebo na praia desde 1998, após receber um buquê de flores das mãos de Lobão.

A intenção para a próxima edição, além dos investimentos em mídia e em marketing mais substanciosos, é internacionalizar o evento, propondo a discussão a respeito da literatura lusófona. “É uma ideia sem custo operacional, de tradução simples e com potencial de resultados bem interessante. Vamos convidar escritores de língua portuguesa”, observa Dácio. João Gilberto Noll e Milton Hatoum são escritores já cogitados para a segunda edição da Flipa, que na verdade se chamará Flipipa. “Não existe a Fliporto? Porque não colocar o nome da praia no Festival, um nome forte como o de Pipa?”, sugeriu Rui Pereira, com a anuência do curador Dácio Galvão.

* A foto é de Fábio Farias, um dos membros da Revista Catorze.

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