Flores amaldiçoadas de Almodóvar

Por Marcelo Mirisola
FSP

RESUMO

Com protagonista sádico, mistura de dr. Jekyll e mr. Hyde, capaz de castigar, abusar e amar ao mesmo tempo sua vítima, “A Pele que Habito”, novo filme do diretor espanhol Pedro Almodóvar, explora o que há de mais monstruoso na sexualidade e no desejo para construir fábula anarquista e cristã.

ENGRAÇADO. SAÍ DA SESSÃO do novo filme de Pedro Almodóvar com a figura do pastor Silas Malafaia na cabeça.

Dava até para vislumbrá-lo vociferando no púlpito: “Os irmãos querem uma prova que o homossexualismo não é coisa de Deus? Então vejam essa aberração! Eles são dementes, pervertidos, diabólicos, asquerosos, imundos! O nome do capeta (meia dúzia de pulinhos histéricos no altar) é: Al-mo-dó-var!”.

E eu, modestamente, acrescentaria: “Filmão, hein, pastor?”

Em determinado momento de “A Pele que Habito”, a governanta, diabolicamente interpretada por Mercedes Paredes, que também é mãe do dr. Frankenstein gay (assassino do próprio irmão), diz que a doença e o crime foram gerados a partir do ventre dela, que pariu dois monstros fratricidas -embora filhos de pais diferentes.

Creio que é o momento mais terno do novo filme de Almodóvar. Feito sob medida, aqui na minha imaginação, para inspirar a ira de pastores do feitio de Malafaia e assemelhados.

Mas não é só isso, é claro que não. A associação que faço e essa “medida” (o filme trata de medidas, costuras) não são gratuitas. Se algum discípulo da Igreja Universal do Reino do Malafaia quiser confirmar que homossexualismo é conspiração do capeta e não é coisa de Deus, está tudo lá, repito -aliás, quem repete é o pastor na pregação que imaginei-, tudo chancelado no novo filme de Almodóvar, talvez em sua raiz mais delicada e paradoxalmente monstruosa, a questão da transexualidade. Como se nosso Laerte não tivesse virado uma baranga.

O cartaz do filme diz: “Loucura, fúria, paixão”. E eu, além de insistir na demência, no asco, na violência, repetiria: “Grande filme”, apesar das passagens de tempo auto-explicativas e exageradamente inverossímeis, e do enredo que se resolve histericamente, e apesar de achar que Kafka (ou até mesmo Aguinaldo Silva) alcançariam resultado semelhante com mais sobriedade. Ou seja: apesar de minhas implicâncias tolas, o filme é genial.

O diretor espanhol investiu num tesão primitivo, foi lá no tal de pântano da psique e colheu uma flor negra e amaldiçoada – chamada mulher, arrancada da costela do homem.

TESÃO

A Bíblia do pastor Malafaia é que confirma a tese de Almodóvar: Gênesis, 2: 21-23 -“21 – Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre o homem, e este adormeceu; tomou-lhe, então, uma das costelas, e fechou a carne em seu lugar”; “22 – e da costela que o Senhor Deus lhe tomara, formou a mulher e a trouxe ao homem”.

Deu uma comichão de tesão aí, hétero leitor?

Almodóvar sabe que a pele é o primeiro elemento, depois da alma, de que dispomos para exercer nosso desejo. Eureca! O primeiro ponto de contato, nossa casca que, no filme, vira uma espécie de roupa de látex, rosada, algo que, como bem lembrou o colunista da Folha Marcelo Coelho, em texto publicado na “Ilustrada” (“Desejo em carne viva”, 16/11/2011): “Valoriza ao máximo o belo desenho de um corpo, enquanto representa igualmente uma total interdição ao contato sexual”.

Almodóvar sabe que ambiguidade dá tesão. Ele brinca com esse dado: e se pudéssemos tirar essa roupa? E se, junto com essa roupa, pudéssemos esquecer nossa personalidade e nosso passado? E se um médico fetichista que manipula a tecnologia (ah, a tecnologia, outro fetiche) arrancasse nossa pele e fizesse isso à nossa revelia?

Primeira curva do trem fantasma. Vamos em frente.

Antonio Banderas é uma espécie de dr. Frankenstein gay, bíblico, tesudo e autofágico. Ele é mais do que um mr. Hyde. Vai além: o dr. Jekyll de Almodóvar caça, condena, pune, usa, castiga e abusa, e depois ama incondicionalmente, como se fosse um grande masturbador que no final do ato perde o controle da criação.

Qualquer semelhança com o Deus da Bíblia do pastor Malafaia não é mera coincidência.

No começo do texto, eu dizia que o momento mais terno do filme se dava quando a zeladora do cárcere, mãe do médico e do tigre (esqueci de dizer que tem um tigre taradão na história), afirmava ter parido os irmãos fratricidas de seu ventre amaldiçoado. Agora, pensando bem, embalado pelos desdobramentos do meu próprio texto (lembrei do Alberto Guzik, encarnado no meu “Monólogo Velha Apresentadora”: “Pari camundongos, pari duplas sertanejas”)*, vejo que o fato de o herói de Almodóvar transformar o estuprador de sua filha autista numa flor amaldiçoada, para depois amá-lo (ou amá-la) como se fosse sua esposa e mulherzinha, não é -como a maioria dos espectadores é induzida a crer- um castigo para o estuprador, mas sim uma demonstração de afeto e amor irrestritos.

Se a vítima não entende isso, azar o dela. Você sabe por que está no mundo? A lógica é a mesma, outra vez bíblica, divina.

MOEDA DO CONTROLE

Talvez o cárcere da mulher-monstro seja a mais pungente demonstração de perdão, meticulosamente construída, que já vi na tela do cinema. A ideia, repulsiva por excelência, é antiga e nossa velha conhecida. Ora, pode haver algo mais excitante e repulsivo do que, além de perdoar seu inimigo, prendê-lo, torturá-lo, manipulá-lo, arrancar-lhe a identidade e os testículos?

Pedro Almodóvar deve rezar o Pai Nosso toda santa noite, e Deus certamente o perdoa com uma ponta orgulhosa de louvor e tesão. Não há nada mais excitante, sadomasoquista e repulsivo do que perdoar quem nos ofendeu -e amá-lo na sequência.

Daí a constatação, agora nítida para mim, de que esse filme foi feito sob medida para a época sombria e fundamentalista em que vivemos. Um filme que rejeita os cercadinhos da Parada Gay e, ao mesmo tempo, viaja na contramão da Marcha para Jesus, duas faces, afinal, da mesma moeda: a moeda do controle.

Almodóvar é radicalmente anarquista e cristão: em um nível que jamais os bispos e os pastores que condenam o sexo pelo sexo poderiam aceitar. Nem eles, nem os gays “do bem”, digamos assim. Ele consegue ser sádico e libertário, como João Batista e os grandes profetas da Bíblia. E aqui não cabe aquela tese desgastada de que tudo o que se condena é o que se deseja, não é tão simples assim.

O cirurgião plástico exerce seu sadismo na medida em que usurpa e ama, algo que transcende o simples desejo: tanto que ele é morto pelo objeto, literalmente o objeto de seu amor, e não o contrário. E libertário porque o herói de Almodóvar dá asas à sua criação e a inaugura -não existe gratuidade aqui: como João Batista, o cirurgião batiza o monstro e o denomina Vera, uma corruptela (se não é uma corruptela, vai ser agora…) de verdade. Não existem limites para a verdade, percebem?

Aí eu penso em nossos esquálidos tropicalistas e vejo o quanto a autofagia deles deixou a desejar, mas esse é outro papo.

Pedro Almodóvar investiu num tesão primitivo, foi lá no tal de pântano da psique e colheu uma flor negra e amaldiçoada – chamada mulher, arrancada da costela do homem.

Almodóvar sabe que a pele é o primeiro elemento, depois da alma, de que dispomos para exercer nosso desejo. No filme, vira uma espécie de roupa de látex, rosada

Ora, pode haver algo mais excitante e repulsivo do que, além de perdoar seu inimigo, prendê-lo, torturá-lo, manipulá-lo, arrancar-lhe a identidade e os testículos?

“Monólogo da Velha Apresentadora”, peça de minha autoria, protagonizada por Alberto Guzik antes de morrer, em 2010.

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