Do florescer dos cajus na praia-refúgio

Antes este blogueiro percebesse no azul do céu ou no florir dos cajus a chegada discreta do verão. Confesso ainda sentir aquela aura invernal perfumando os ares de Santa Rita. Os cajus até já se fazem abundantes nas cores acinzentadas da velha Redinha, sempre vila. Mas as tilápias por aqui ainda são poucas. É o que tenho visto.

É que em Santa Rita, amigo leitor, as partidas das jangadas são esporádicas. Os pescadores da praia são nativos sobreviventes, que buscam na conquista dos mares um adendo à mesa de refeição. Na Redinha, é tradição que remonta séculos. Antes, há pelo menos 20 anos, os peixes chegavam em Santa Rita em caçuás, acompanhados de mangabas e siriguelas, transportados no lombo de jumentos e cavalos. Era o sinal da abundância dos peixes e dos bons ventos do verão.

Mas deste alpendre antigo vejo a calmaria da praia em contraste com o mar bravio. Os ventos ainda são fortes, como um mês de agosto. Sequer os domingos sentem a presença dos banhistas passageiros – invasores de um dia. Por enquanto, as gaivotas e os coqueiros continuam donos do lugar, desacompanhados dos bugres barulhentos. Para o lado das dunas, talvez os cajus, no silêncio dos segundos, estejam mais corados com o sol que se espreguiça.

Quem sabe quando o vento frio da melancolia abrandar por este cenário de areias alvas e mar esverdeado, o verão apresente suas tardes avermelhadas, em festas de luzes. E os coqueiros, já entediados de tanto vento, possam descansar de uma tarde tão longa de inverno. Ancorada na praia, liberta de tudo e desperta do sono, a catraia será novamente sustento no reencontro com o mar. E o passante solitário do entardecer já verá rabiscos de letras e frases na areia, fruto das paixões de verão.

Desta minha varanda espero passivo a estação veraneio – não a do calendário, já adiantada, mas aquela mais alegre. Na languidez do balanço da rede, antevejo os cenários de alegrias passageiras, estampidos de um entusiasmo efêmero de uma tarde de sol. É assim o verão: uma passagem colorida e alienada da alma. Antes, o cinza-refúgio; a melancolia dos descansos friorentos de uma estação mais silenciosa e reflexiva, como os dias de segundos congelados do inverno e um bom livro para acalentar uma vida cansada de aventuras.

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

There is 1 comment for this article

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

11 + 9 =

ao topo