fandango de canguaretama

Por que o folclore potiguar é dos mais ricos do Brasil?

Tomemos como base definitiva que o Brasil é dos países mais ricos em diversidade cultural do mundo. Isso é fato reconhecido por estudiosos, mesmo uma terra descoberta por Cabral sem ter vivido a Idade Média. E dentro dessa sopa nacional com 27 ingredientes, o Rio Grande do Norte é quem dá o sabor mais original.

Desde quando me entendo por jornalista ouço o folclorista Deífilo Gurgel afirmar: o Rio Grande do Norte é o estado mais rico em folclore do mundo. E nesta quinta-feira (27) ouvi o presidente da Comissão Nacional de Folclore, o potiguar Severino Vicente, falar o mesmo durante live do projeto Diálogos Culturais, promovida pela Fundação José Augusto.

A riqueza das informações colocadas por Severino Vicente e a memória e defesas do folclore potiguar por Deífilo Gurgel me estimularam a deixar registrado essas afirmações. Apenas o Rio Grande do Norte possui os quatro grandes autos populares (ou danças populares, como afirmava Mário de Andrade, que por aqui esteve durante 45 dias): o boi, o fandango, a chegança e o congo.

Das lembranças de conversas pessoais com o mestre Deífilo Gurgel, é interessante citar ainda o Caboclinho (ou Cabocolinho, como gostava de citar), sendo o mais original do Brasil, made in Ceará-Mirim. Ressalto que essa afirmação data de uns 15 anos atrás. Desconheço a situação atual do grupo.

Vicente lembrou ainda a opinião do folclorista Théo Brandão: “No Rio Grande do Norte, Sergipe e Alagoas você encontra o folclore mais rico do Brasil”.  Severino destacou que a Chegança de Barra do Cunhaú e o Fandango de Canguaretama têm motivações da Idade Média em seus enredos, resgatados pela mestiçagem característica do povo brasileiro.

Um RN de folcloristas raros

“O RN é importante não só por ser terra do maior folclorista brasileiro, Câmara Cascudo, mas também por ter sido estudado por dois raros gênios da cultura brasileira: Cascudo e Mário de Andrade, que mostrou que o RN era dos estados mais ricos com matrizes e raízes culturais com traços profundos de originalidade”, afirmou Severino Vicente, durante a live.

E vale citar mais um bamba desta ceara, lembrada pelo próprio Cascudo. “Deífilo é importante ao folclore. Ele pesquisa, ele anota e ninguém andou mais pelas estradas do Rio Grande do Norte do que Deífilo”, lembrou Severino Vicente.

E pelas andanças de Deífilo foram descobertas das mais importantes figuras da cultura potiguar com representação e importância nacional: o “poeta dos vaqueiros” Fabião das Queimadas, o coquista Chico Antônio, o mamulengueiro Chico Daniel e a romanceira Dona Militana.

Importância de Cascudo

Segundo Severino Vicente, a relevância de Cascudo esteve não só no pioneirismo, mas no incentivo ao estudo do folclore no Brasil. “Foi ele quem consagrou e trouxe ao Brasil a importância da palavra folclore. E profetizou que tínhamos um folclore ascendente e que iríamos viver um novo folclore. E hoje vivemos um novo folclore”.

Hoje, como lembra Vicente, se trabalha o novo folclore baseado em pontos da Carta do Folclore Brasileiro. “Não são mais os pontos estudados por Cascudo, baseados na antiguidade, no anonimato, na divulgação e na persistência. Como ninguém fez, ele criou esses pontos em 1942, quando fundou a Sociedade Brasileira de Estudo do Folclore. Em 1951, ele vai ao RJ e com intelectuais fazem o primeiro congresso brasileiro do folclore”.

Apenas em 1955, ou seja, 13 anos após os primeiros fundamentos para o estudo do folclore brasileiro criados por Cascudo, foi elaborada a nova carta do folclore brasileiro, ainda hoje o norte para esta seara, sustentada pela tradicionalidade, pela dinâmica, pela aceitação coletiva, e aceitabilidade social.

Folclore nas escolas

Um ponto insistente levantado por Severino Vicente durante a live foi a fundamental necessidade de se respeitar a constituição – via lei criada pelo então deputado Valério Mesquita – e aplicar o aprendizado do folclore nas escolas.

“Com nossa riqueza, nosso conhecimento, nossos escritos, nossa vontade e nosso diálogo podemos dar um ponta pé para implantarmos o folclore nas escolas. Os jovens dão valor a essas porcarias da televisão porque é o que veem, é o que conhecem, o que chega para eles. Hoje com a facilidade da tecnologia e o ensino nas escolas, elas também podem valorizar o folclore”.

Severino Vicente lembra que ele e Deífilo Gurgel percorreram secretarias municipais para solicitar a implantação do folclore nas práticas pedagógicas. “Elaboramos projetos, fomos repetidas vezes até Deífilo desistir, desmotivado. Hoje há apenas ações pontuais, como algumas promovidas pelo Instituto Ludovicus”, salienta.

No Rio Grande do Norte, segundo Vicente, apenas o Instituto Kennedy aplica o folclore na grade pedagógica. “Em outros estados há essa inclusão. Não nos faltam livros para servir de base para preparação de aulas. Temos os instrumentos. Falta a boa vontade da comunidade escolar”.

Folclore potiguar, turismo e RPV

Outra lamentação de Severino Vicente foi a “visão tacanha” de empresários do turismo em renegar a parceria do turismo com o folclore para atração turística e manutenção e reconhecimento aos mestres e grupos do folclore.

“É o que é nosso. é o que o turista procura. Veríssimo de Melo lutou durante anos para essa união. O folclore e o turismo são irmãos gêmeos e rendem dinheiro para artistas populares que vivem em situação de dificuldade”.

E lembrou a importância da reativação do edital Registro do Patrimônio Vivo, lei apresentada pelo deputado Fernando Mineiro e iniciada em gestão passada do próprio Crispiniano Neto.

“Deífilo foi pioneiro na elaboração do RPV e com isso arranjou aposentadoria pra Chico Antonio, Chico Daniel e mais uns dois que não lembro. Ele saía às secretarias inserindo esses artistas. Zé Relampo, infelizmente, morreu antes, em extrema pobreza, um dos maiores mamulengueiros da história do RN!”.

Para ratificar todo o dito por Severino Vicente durante a live, vale uma frase de Cascudo lembrada por Severino: “Folclore é vida. Nele nascemos, nele vivemos e nele morremos”.


Imagem: Fandango de Canguaretama (acervo do professor Luís Assunção)

Jornalista por opção, Pai apaixonado. Adora macarrão com paçoca. Faz um molho de tomate supimpa. No boteco, na praia ou numa casinha de sapê, um Belchior, um McCartney e um reggaezin vão bem. Capricorniano com ascendência no cuscuz. Mergulha de cabeça, mas só depois de conhecer a fundura do lago. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

4 × 4 =

ao topo